Sexta-feira, Novembro 20, 2009
Disperso
Enquanto não me chega a paciência ou a energia para reler e acabar os posts que queria ter publicado aqui vou escrevendo sobre outras coisas que me ocorrem. O tom de "querido diário" é inevitável, mas já era hora de começar a escrever em maior quantidade, o que é melhor do que não escrever at all. Na era do Twitter (tremo diante da idéia de haver uma "era" do Twitter) em que podemos escrever telegráficos relatos de nossas atividades para todas as pessoas que nos acompanham pela internet, eu, o prolixo bacharel, prefiro utilizar a tecnologia para informar a quem interessar que estou ouvindo Mozart no momento, enquanto me recuperode uma gripe desagradável (putz, e existe outro tipo?) cuja força descomunal me desancou ontem e hoje deixou somente uma má lembrança e muitos lenços de papel.
II
Instalei em meu notebook um programa chamado Digsby, que unifica as mensagens de diversas contas de e-mail, perfis em sites de relacionamento e programas de chat pela internet. Embora esteja gostando da ferramenta, pois me poupa o tempo de ficar ciscando informações e mensagens recebidas de diversas fontes e com diversos graus de interesse.O que me assustou foi constatar, depois de configurar o programa para administrar o MSN, Facebook, Yahoo Mail, Gmail, Hotmail, Google Talk e Twitter (o programa não se conecta ao Orkut nem ao Skype, os quais tenho que ver separadamente) , a quantidade de meios de comunicação dos quais disponho. Achei um exagero, e não fosse pelo Digsby acho que já teria exterminado boa parte deles, pois nunca gostei de estar tão acessível assim. Sinal dos tempos. Moro longe da família e dos amigos mais antigos e seria mais difícil não fossem estas pequenas comodidades, mas para que tantas? Noventa e cinco por cento do que recebo é bobagem. Outro sinal dos tempos. O marketing agressivo é um adversário feroz do nosso controle sobre o próprio tempo (é também, acredito, o túmulo da elegância, da lisura e do respeito) e ficamos constantemente a defender-nos de uma quantidade indescritível de bobagens as quais nos esfregam à cara.
Quantas coisas eu mesmo tive de esquecer ou mutilar para desempenhar meu próprio trabalho... Sempre tive por hábito falar quando solicitado, jamais ser insistente com qualquer pedido, tratar os mais velhos com a devida deferência, e fui sistematicamente solicitado a passar por cima de anos de um trabalho árduo de educação para vender Starbucks e assim "defendê o leite das criança". Situação incômoda, embora eu também não tenha por costume reclamar de barriga cheia. O trabalho é em si fácil. Só não consigo integrá-lo a minha personalidade. Talvez seja isso que me deprime periodicamente. No trabalho também interajo com um número enorme de pessoas por um tempo muito curto. É uma ocupação bastante dispersiva e volto para casa sem um pingo de energia. Ora, "quem comigo não ajunta espalha", e eu estou em cacos, espalhado dessa maneira. Peço a Deus a gentileza de, novamente, juntá-los e ordená-los como só Ele sabe. Não é um problema fundamentalmente diferente destes diversos instrumentos de comunicação que solicitam minha atenção. Doença moderna, criada pelo homem mesmo, com a melhor das intenções.
Segunda-feira, Novembro 09, 2009
Encontro de Olavo de Carvalho, Alan Keyes e Alejandro Peña Esclusa
Assistam o vídeo, registro de um encontro entre três homens que têm, cada qual em sua área, pensado a política com responsabilidade intelectual e integridade pessoal.
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
Engraçadinha e o Futebol
O episódio recente, mais ou menos recente, teve a ver com o gosto que minha senhora insiste em manter pela teledramaturgia da Rede Globo. Ora, eu já fui, até pouco tempo atrás, um desses babaquinhas que achavam muito inteligente criticar a emissora. Primeiro criticava por ser direitista demais, depois descbri que não existia direita de verdade no Brasil e passei a criticá-la pelo motivo contrário. Hoje acho muito besta ficar analisando umas tantas puerilidades televisivas e "jornalísticas" do momento e me ocupo de analisar coisas mais interessantes, e vou de quando em quando umas tantas risadas ao lado da patroa assistindo TV em portugûes quando temos a chance, sem culpa nem arrependimento.
But, alas, I digress. O caso é que nessas ocasiões de convívio com minha adorável consorte, calhou de botarmos as mãos naquela curiosa minissérie que foi a Engraçadinha. Vejam bem, quando a série saiu, eu não pude assistir. Mamãe não me deixava por que o negócio era muito maduro para meus verdes olhos (o que não é dizer que meus olhos sejam verdes, como de fato não são), vovó dizia que era imoral, era pecado. Papai bem poderia ter dito que a coisa toda era uma bela putaria (termo dele, não meu) e que eu ganhava mais indo ler um livro.
Bom, pensei, por um lado terei carta branca para ver umas peladas na TV, por outro vou ter que agir muito sério e compenetrado. Não consegui me compenetrar, nem fingir seriedade. O melhor que pude fazer foi passar uns comentários de conteúdo profundamente moralista num tom incofundivelmente histriônico.
No fim das contas eu gostei da série, não pelos motivos óbvios, que já não sou mais moleque, mas porque a linguagem era deliciosa (e vejam que nem li o livro, mas parece se tratar de uma imitação bacana do estilo do autor), e pela trama, que era chocante e fascinante ao mesmo tempo. E ainda tinha o bestiário de imorais que o programa perfilava, me divertiu à beça ver a interação daqueles tipos humanos tão marcados, cada qual vestindo, falando, transpirando, seus pecados particulares.
Ao final da jornada, três pensamentos me assaltaram, mais um pensamento e seria uma quadrilha (ou bando). Aliás, alguém lembra qual foi a última vez em que foi assaltado por um pensamento? Inversamente, não passou por minha cabeça pensamento algum na única vez em que fui assaltado de verdade. Pois então, fui metaforicamente assaltado por três pensamentos, o primeiro foi que eu precisava logo ler mais alguma coisa do Nelson Rodrigues. O segundo foi que se eu tivesse lido Nelson Rodrigues, lá nos tempos de ginásio, teria me poupado a leitura de John Irving, que hoje não acho nem de longe tão interessante quanto o cronista pátrio. O terceiro, logo depois do segundo (naturalmente), foi que eu tinha sim lido Nelson Rodrigues, e tinha gostado.
Se tinha lido e tinha gostado, por que esquecera? O mistério de minha memória roubada (quem sabe por um pensamento assaltante?) me incomodou durante algum tempo. Foi então, algum tempo mais tarde, recém recuperado da bebedeira que seguiu a última vitória da seleção de Dunga sobre a Argentina de ninguém mais ninguém menos que Don Diego Maradona, lembrando de outros assuntos futebolísticos (na distante Dallas em que football é sinonimo de Cowboys, e da vida amorosa de Tony Romo) descobri a razão do esquecimento: Nelson Rodrigues me fez gostar de futebol.
Explico. Meu pai, professor de Educação Física, preparador físico e paisagista nas horas vagas, fez o possível para me interessar pela arte da bola, sem grande sucesso. Por acaso caiu-lhe nas mãos uma edição d'A Sombra das Chuteiras Imortais, a qual tomei emprestada e devorei com alegria. De repente o futebol pareceu interessante, não na tela da TV, ao som dos berros do Galvão Bueno, ou como o exercício suado das aulas ao sol das três da tarde; antes aparecia como o embate luminoso de heróis da bola de outras épocas. Passei a ver o esporte com outros olhos, projetado na tela imaginária que fazia as partidas muito mais reais que aquelas que acompanhava pela televisão.
Quando recordo as discussões sobre quem jogava melhor, os jogadores de antigamente ou os atuais, outra cretinice da qual me curei (menos uma entre muitas), vejo que o buraco é mais em baixo: os escritores daquela época eram melhores, os jogadores assumiam uma estatura e dignidade assustadoras por tabela.
Tudo isso para dizer que estou gostando muito de ler Nelson Rodrigues e como este feliz (re)encontro veio a se passar. E quem quiser que conte outra.
Quinta-feira, Setembro 03, 2009
A Sagração da Primavera
O processo de estetização da política foi marcante, segundo Eksteins, para a formação do ambiente cultural moderno que culminou na aprovação geral do nazismo pelo povo alemão. A estetização, a vida como arte, a busca da beleza, era o grito de revolta de uma geração que rejeitava a história e o peso das instituições tradicionais de uma sociedade considerada burguesa, antiquada e decadente. A busca do novo, da era que estava nascendo diante de seus olhos, tomou formas de culto, tendo em Hitler seu supremo sacerdote. A figura de Hitler, em si bastante contraditória, era adorada a despeito de não representar nada do que pregava. Ele mantinha a imaginação do povo cativa, completamente alienada da realidade circundante, brandindo diante deles uma imagem de um homem novo, um mundo novo, construções de ficção que pela simples força de sua beleza aparente tornaram sua feiúra real algo solenemente ignorado.
Eric Voegelin encontrou contornos distintos nos mesmos eventos. Ele enxergou na ascensão do nazismo um fenômeno religioso, algo que classificava como uma religião política (tese exposta no livro “The Political Religions” e elaborada em “The New Science of Politics”). Os contornos da religião política podem, segundo Voegelin, ser encontrados em diversas sociedades, desde os antigos coptas até os modernistas do século XX. Em sua perspectiva, Voegelin aponta que o fenômeno de construção de uma nova realidade é ligado à idéia de transformar a Terra em um paraíso, o homem em um ser perfeito, e mostra que tal disposição da alma é bem mais antiga do que a nossa modernidade gostaria de supor.
Fiquei a me perguntar: qual seria a perspectiva mais próxima do fenômeno real? A religião política ou a estetização da vida? A religião política parece carregar o peso da história, ao passo que a vida como arte parece querer jogá-la na lata de lixo, ou talvez recriá-la conforme o desejo da imaginação.
A religião política, ligada ao conceito controvertido de gnosticismo proposto por Voegelin para explicar o caso alemão, possui uma longa história, porém não parece carregar, em uma melhor análise, todo seu peso. A atitude religiosa gnóstica – ou revolucionária, como se queira – é ela mesma necessariamente cega para sua própria história, e consiste num salto cego para o futuro. Esse salto cego, realizado por todo aquele que dissipa a razão, a história e a família em prol do desconhecido, é realizado justamente por meio da imaginação. É a imaginação que pinta um quadro atraente do futuro a ser buscado pelo seguidor da religião política. A força das imagens se impõe e, nas mãos de um artista talentoso como Hitler, arrasta a o público para dentro de sua fantasia até a morte.
Gostaria, inclusive, de entender melhor por que razão a morte possuía tamanha atração para os seguidores da suástica. A intensidade da vida potencializada até seu limite dando lugar à morte era uma constante na psique perturbada pelo radical deslocamento da realidade sofrido por aquelas pessoas. A morte, então, possuía uma beleza incomensurável, uma beleza que ainda ecoa na mente de alguns artistas, creio eu.
Além desta incursão por um possível motivo que explique a complementaridade das visões sobre a Segunda Grande Guerra e os momentos que a precederam, fica uma dúvida: até que ponto a complementaridade não seria conseqüência de uma semelhança profunda entre a experiência religiosa e a experiência estética? Seria então a revolta artística um espelho da revolta contra a religião cristã no ocidente, empreendida pela teologia liberal e pela filosofia secular do século XIX? Foi a rejeição de Deus, e a subseqüente perda de sentido por parte de tanta gente nas sociedades ocidentais, que lançou toda uma geração a precisar fazer a escolha vil entre Eros e Tanathos?
Roger Scruton, no volume Modern Philosophy, faz um interessante paralelo entre a religião e a arte, apontando ambas como instâncias em que experiência e sentido estão unidos intimamente. A perda de sentido, portanto, seria um fator que afeta igualmente arte e religião, e ambas, ao deixar órfãos os indivíduos, o deixariam indefeso e entregue à adoração estético-religiosa de uma idéia ou de uma figura política. Francis Schaeffer, um dos mais lúcidos observadores dos eventos mundiais no século XX, avisava que caminhamos para um futuro sombrio, justamente quando o progresso humano parecia mais espetacular, e a vida espiritual genuína, bem como a verdadeira educação, ficavam mais e mais distantes das pessoas. A perda da antítese, nos termos de Schaeffer – que podemos entender como noção de verdade, de absolutos, ou seja, de sentido e referência – é um fenômeno semelhante, com conseqüências semelhantes, ao que foi observado por Eksteins. Seria prudente lembrar, então, das lições da história recente.
Isto nos deixa uma pergunta difícil. Em que medida somos herdeiros daquela geração tão peculiar que provocou e assistiu as dores e o parto da modernidade? Quais são as chances de que, dadas circunstâncias semelhantes, venhamos a repetir suas vidas e o caos extraordinário em que se lançaram?
Observação metodológica:
Falar em perda de sentido como um fenômeno histórico não é dizer que a mudança ocorra nas esferas espirituais transcendentes, inacessíveis aos seres humanos normais e que depois se deposite assim acabada nas cabeças das pessoas concretas. Schaeffer foi um excelente exemplo de visionário que, como Taine, não deixou de buscar traçar a história das idéias que combatia a fim de demonstrar suas origens humanas, atribuindo idéias e mudanças aos indivíduos que as trouxeram à luz. Entendo que o método tenha uma vantagem muito maior do que a simples precisão histórica que possibilita ao estudioso. A busca por idéias pessoais ao invés das impessoais é também uma maneira de tirar delas grande parte de seu poder. Se acredito, como Schaeffer, que o próprio Deus é um Deus pessoal que se revela a mim e a quem mais o busque e reivindique responsabilidade por tudo o que faz e cria, não faria sentido imaginar que forças históricas ou idéias políticas perambulam por aí, incriadas e assustadoras, como divindades, lançando os homens uns contra os outros sem qualquer tipo de filiação. Em tempo, este aviso precioso foi dado pelo professor Olavo de Carvalho e convém, também nesse caso, indicar a procedência.
II
Faz algum tempo que escrevi as linhas acima. Desde então comecei a freqüentar (o termo é inexato, porém servirá para o momento) o Curso Online de Filosofia, aprendi o papel imprescindível da imaginação para nos instalar na realidade. Relendo o que escrevi à luz deste novo aprendizado me apareceu o seguinte problema: como vou entender o apelo à imaginação feito por Hitler ou pelos revolucionários, tão distante da faculdade que nos estabelece na realidade?
Este problema me faz pensar de novo em Schaeffer. O teólogo fala, no começo de sua “Trilogia”, da ruptura da unidade do conhecimento, os “dois andares” nos quais a mente humana se dividiu, incomunicáveis e antagônicos. O primeiro é o da razão pura aplicada aos dados sensíveis (ou a ciência, da maneira como é popularmente entendida). O segundo é o da fé e do conhecimento espiritual que dá sentido e orientação à vida do homem (o elemento espiritual). Ora, quando a imagem completa da realidade é inacessível ao homem, uma vez que este não consegue realizar por si a ponte entre os andares isolados do conhecimento, a imaginação não pode instalar ninguém na realidade de forma integral. A faculdade imaginativa será sempre aplicada a um ou outro domínio sem que o sujeito se dê conta do quadro completo que se desenrola diante dele.
O que teria acontecido então? A primeira idéia que me ocorre (e pode nem ser a mais correta) é que o uso feito da imaginação no caso aqui examinado é feita de forma diversa daquela que nos seria salutar. Diante da incomunicabilidade entre os dois andares em que a mente humana se dividiu (evidente que alguns seres humanos individuais escolhem o primeiro andar e outros seres humanos escolhem o segundo) o homem desesperado por alguma forma de sentido e orientação na vida, deferente do racionalismo difuso e pseudo científico, sente de forma pungente a atração do salto cego de fé rumo a alguma forma de sentido existencial e espiritual. O caso é que essa situação foi explorada com maestria pelo Fürher, que apelou para uma imaginação sem acesso à realidade como um todo a fim de fazer dela um instrumento de expressão do impulso de dominação de destruição, projeto no qual foi seguido por milhares de milhares.
De fato, a grande obra do diabo é fazer caricaturas monstruosas das criações de Deus. Tudo indica que esse caso não foi diferente, a imaginação que deveria estabelecer o homem no real acabou virando meio de afastá-lo do real e lançá-lo num impulso de destruição devastador.
Quarta-feira, Junho 17, 2009
Em férias
Tudo parece um regresso à adolescência tardia que vivi antes de casar. O que me surpreende é o fato de que estive tão afeito a essa vida que hoje já não reconheço. Não me vejo mais como o moleque folgado que passava os dias entre a TV e a internet, roubando algum tempo para os livros quando convinha. Hoje, por simplória que seja minha ocupação, tenho lá minhas responsabilidades, que pesam e ao mesmo tempo dão ao peito certa gravidade e aos pés um alicerce mais firme no real. Diante de tudo isso, a preguiçosa passagem dos dias de férias incomoda bastante.
Quando observo os homens de gênio, o quanto fazem e em quão pouco tempo, fico abismado ao ver quão pouco tenho eu para mostrar na hora de prestar conta dos meus dias. Pensar nisso me incomoda um bocado, ainda que tenha certeza de que minha atenção vagante tratará de esquecer o negócio todo diante da primeira oportunidade de fazer algo menos deprimente.
Tentação diabólica pensar bobagens ao invés de concentrar a mente e o espírito em algo que preste. Nas poucas vezes em que fiz o esforço a recompensa foi grande. Agora que patino nestas reclamações medíocres, nem o pior, nem o melhor entre meus pares, simplesmente perdido em meio à vastidão do mundo assim aberto diante dos olhos, tremo diante da responsabilidade que tanta gente assume sem mais delongas: ser homem.
É certo que minha covardia recede diante da necessidade e do dever, espremido, então, entre a inércia e o impulso que de fora me leva a agir em favor de algum avanço, algo melhor na vida, fica espremido o melhor em mim, a parte que, não fosse minha pequenez, teria achado energia e tempo para fazer algo da vida que ao menos tivesse um sentido identificável. Tenho medo de me tornar mais um caso, nas palavras do filósofo, de vida que poderia ter sido e não foi.
Outras dúvidas ocorrem na cabeça desocupada: será que minha propensão intelectual é vocação ou teimosia? Comecei a coisa toda por não saber mais o que fazer. Só sabia ler o que quer que fosse e, confundindo inteligência com leitura, tentei me aprofundar no desenvolvimento do intelecto, tudo para descobrir que na verdade faltava ainda fazer brilhar o espírito, e que a verdadeira vida intelectual se passava fora dos textos dos livros - meros registros, sombras amarelecidas da verdadeira inteligência. Dos livros acabei chagando a algo mais profundo e, embora fascinado, ao ver que o buraco era mais embaixo, me encontrei novamente perdido, para meu desconsolo. No mais, que fim se haverá de dar a tanta inteligência? Bastará que ela exista e ficaremos todos satisfeitos?
Levei três semanas para sair do zum zum zum patético das férias tão aguardadas e articular estas lamentações. Quanto mais tempo não levarei para fazer algo a respeito... Esta aflição é paralisante. Se não passar sozinha, não sei que fim terei. Só sei que não será bonito.
Terça-feira, Abril 28, 2009
Permissão para Matar
Lowell é uma bondgirl incomum, capaz de fazer bonito frente ao agente 007 em qualquer luta, independente e desafiadora. É interessante ver uma bondgirl que não derrete na tela diante da mera presença de James Bond. A química entre ela e Timothy Dalton é perfeita, uma dessas coisas que leva a gente ao cinema para ver. Em poucas ocasiões me vi torcendo por uma dupla de heróis como foi o caso com os dois.
Fiquei impressionado na época ao descobrir que License to Kill fez muito pouco sucesso com o público americano. Grande parte dos críticos concordam que License foi um dos melhores filmes do agente 007, e muita gente concorda em dizer que Timothy Dalton foi o Bond mais fiel aos livros de Ian Flemming. É engraçado, eu sou da geração que viu Pierce Brosnam interpretando o agente nos cinemas e, apesar do charme inegável ator, achei que ele fez algumas das piores interpretações de Bond no cinema; depos de estar acostumado com um bond desses, assistir ao 007 de Timothy Dalton foi uma surpresa muito grata. Ele conseguiu antever a direção que a série teria de tomar (especialmente depois de Die Another Day, possívelmente o pior filme da série) para cativar a audiência e principalmente respeitá-la. O mais interessante é que ele o fez faz uns bons vinte anos.
Os fãs da série, em especial aqueles que tiveram uma boa impressão do Bond atual, fariam bem em assistir License to Kill. É inevitável a comparação com Quantum of Solace, uma vez que em ambos vemos um Bond que renega o MI6 para buscar vingança por motivos pessoais.O Bond de Daniel Craig é, para mim, um remake do de Dalton, sério, determinado, implacável, nada propenso a fazer piadinhas imbecis.
License to Kill fime tem grandes cenas de ação, capangas memoráveis (como o ator/revolucionário bolivariano Benício del Toro), uma ponta com o Wayne Newton, locações impressionantes, que fazem justiça à tradição dos filmes de 007 de serem úteis guias turísticos e de quebra um grande sucesso nas paradas americanas foi a música dos créditos finais do filme, If You Asked me To, composta por Diane Warren e interpretada por Patti LaBelle. Cada vez mais pessoas, ao que me parece, estão reconhecendo suas qualidades, e gostei de ver que eu não era o único a apreciar este subestimado capítulo da saga de James Bond. Espero ter contribuído para fazer justiça ao filme.

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009
Roger Scruton Fala sobre Música
O artigo que quero apresentar aqui não tem nada a ver com filosofia moderna. Tem a ver com música mesmo. Scruton - que por sinal chegou inclusive a compor uma ópera, embora isso seja outra história - escreveu um artigo bacana no Sunday Times a respeito do aparente sumiço da música na vida diária. Ele toca de leve, como seria de se esperar em um artigo de jornal, no problema estético que representa o consumo de música sem uma boa melodia.
Isso sempre me incomodou, mas me sentia um idiota quando falava minha opinião sobre boa parte da música popular ou pop para alguém. Agora estou vingado. É sempre gostoso ver uma pessoa bem mais inteligente que você confirmando uma opinião enterrada por timidez e pressão social. Mesmo em casa sou desencorajado pela esposa e nossa gata, ambas detestam o canto e o assovio, também mencionado por Scruton, e ambas começam a miar e me arranhar se estou cantando. Uma lástima. Mas chega de digressões. O link para o artigo está aqui:
http://entertainment.timesonline.co.uk/tol/arts_and_entertainment/music/article5467286.ece
Sem mais para o momento, despeço-me. Bateu uma vontade louca de atazanar a mulher e a gata agorinha mesmo.

Sábado, Dezembro 13, 2008
Dies Irae
Embora os cristãos tenham como moeda fácil no seu linguajar a expressão “confiança”, fico me perguntando quantos realmente a sentem. Nossa epígrafe para estas linhas foi escolhida com esta pergunta em mente. As palavras de Jesus diante dos Fariseus que preocupavam-se em descobrir o dia da vinda do Reino de Deus. A passagem dos capítulos 17 e 18 do evangelho de Lucas mostram como, para Jesus, a confiança humana é mal colocada. Ele mostra por uma série de parábolas confiadas aos discípulos o quão vã é tal especulação. Jesus apequena todas as iniciativas humanas de regeneração da raça na passagem, diante da vinda do Reino; Jesus cita os atos de comer, beber, casar, dar-se em casamento, comprar, vender, plantar e construir. O Julgamento será tão terrível que, interrogado sobre o local em que acontecerá o evento, Jesus anuncia que será onde estiverem os cadáveres, naquele local se ajuntarão os abutres.
A confiança humana é destroçada por Jesus diante da perspectiva da morte e do julgamento divino. O verso 17:37 não deixa dúvidas de que haverá carnificina e horror. Ao tratar do período de domínio do Imperador Romano (me refiro ao Sacro Império Romano-Germânico), Eugen Rosenstock-Huessy, no livro Out of Revolution, pinta um quadro belíssimo da idéia do Julgamento como um fator decisivo na formação do caráter do cristianismo por volta do ano 1000. A imagem coaduna perfeitamente com a parábola de Jesus nos versos 9 a 14 do capítulo 18, sobre o fariseu e o publicano. O lamento do publicano, “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador”, é um retrato da situação da cristandade européia na época tratada por Rosenstock-Huessy. A descrição sombria do Dia do Senhor é um convite imediato ao arrependimento e conversão. Não se trata aqui de uma ameaça do inferno, tão jocosamente tida pelos liberais como a grande força por trás da religião. Trata-se da consciência profunda da miséria de todos os homens diante do Juiz supremo, e mais interessante, a consciência da necessidade de que todos os homens passem igualmente pelo escrutínio de sua alma, sem que nada fique oculto. Rosenstock-Huessy sugere que esta visão é fruto da primeira revolução de caráter democrático na Europa cristã. A fundamental igualdade de todos diante do Juiz. Essa camada profunda do cristianismo é tão sólida a ponto de, segundo ele, resiste o poderoso ataque de Lutero à Igreja Romana, seus príncipes e suas hierarquias.
Fico impressionado com a força da idéia do homem diante do trono de Deus. A desproporção entre um e outro infinita, podemos apenas aproximá-la imaginativamente. O ato humano de maior humildade é ao mesmo tempo o de maior coragem: pedir a Deus por sua fé, por sua alma, arrepender-se diante Dele e esperar Dele o perdão. Esta é a essência da inovação espiritual iniciada com Abraão, colocar o homem diante de Deus. Creio que disso deriva a força do "dia de todas as almas", bem como da revolução de Lutero. Penso que a maioria das pessoas, se refletir longamente a respeito deste assunto, terá seu ego destroçado pelo á horror do julgamento vindouro. Permanecemos comendo, bebendo, comprando, vendendo, casando-nos e dando-nos em casamento, porque ignoramos as realidades mais relevantes para nós, a saber, quem somos e o que podemos esperar do futuro.
Aí está a beleza da descrição de Rosenstock-Huessy do dia de “Todas as Almas”. A beleza encontrada em meio ao horror. O julgamento terrível é condensado de forma ainda mais impressionante no poema Dies irae, e a inspiração do poema é aperfeiçoada no final, quando o autor contrapõe ao julgamento implacável o pedido:
iuste iudex ultionis,
Donum fac remissionis
Ante diem rationis.
Justo juiz de vingança,
Dá-nos o presente do perdão
Antes do dia de prestação de contas
Isso é o melhor que podemos fazer diante do juiz. Porém aquele que o fizer, será justificado diante de Deus. Me pergunto quantas pessoas são capazes de encarar sinceramente dentro de si o horror do Dies irae a fim de encontrar então o perdão e a salvação pela fé em Cristo Jesus. A via é assustadora demais. Quem haveria no mundo com tamanha fé a ponto de se apresentar diante de Deus no dia do juízo confiantes na justificação conferida por Deus por meio de Cristo? Ou seja: “quando o filho do homem vier, encontrará fé na Terra?” Aí está um sentido que até pouco jamais suspeitei ter a expressão “temer a Deus”.
Este é o verdadeiro teste da confiança humana. Aí podemos ver o quanto nossa confiança é pouca, o quanto é mal colocada. Nossa fé na regularidade de certas instituições e eventos da vida é nada menos que ridícula. Curiosamente, a única maneira de resistir ao Juízo é confiar na Graça do próprio Juiz. Ele é o único que pode subsistir sua própria ira contra o homem que ousou ofender a Sua glória. Aí vemos o amor de Deus, que nos preserva da ira mais poderosa a fim de insistir na nossa existência a despeito de sua própria justiça.
Tuca
As semelhanças, no entanto, param aí. Ao contrário da mais que famosa Karen Carpenter, Tuca é um dos mais bem guardados segredos da música popular brasileira; informações sobre sua vida são difíceis de encontrar, e seus albums só recentemente foram disponibilizados pelos bons ofícios do Zecalouro, responsável pelo site Loronix. Muita gente no Brasil e no estrangeiro passou algum tempo sem saber o que acontecera com ela. Os franceses sempre poderão se lembrar do álbum “La Question”, de Françoise Hardy, os brasileiros, além de poderem ouvir os álbuns de Tuca – cujo nome de batismo é Valenzia Zagni da Silva – podem ouvir o excelente “Dez anos Depois” de Nara Leão, que contou com grande participação de nossa heroína.
Tuca é da geração que apareceu no âmbito dos festivais universitários de música e aqueles grandes festivais da TV brasileira. Para os mais jovens (também não vivi nada daquilo, mas ao menos sei do que se trata), explico que era assim que alguém ficava conhecido nos idos de 1960, quando não existia MTV. É um período da música que acho bem interessante, cresci ouvindo esse tipo de coisa em casa, por culpa de mamãe (a culpa é sempre da mãe), mas não imaginei que houvesse saído dali uma artista tão criativa quanto Tuca. Achei sei trabalho acima da média, acrescente-se a isso o fato de ser algo pouco conhecido e minha atenção foi completamente cativada. Drácula “I Love You” foi muito ousado, diferente e é altamente recomendado por este humilde escrivinhador. Ali você encontra um misto de tristeza e estranhamento que, nas primeiras audições, me deixou meio sem chão. “Meu eu” é uma viagem curiosa pelo Brasil, pois te leva, às vezes na mesma faixa, por entre universos musicais díspares que se encontram espalhados pelo país, sem esquecer a influência clássica que faz participação especial em trechos do álbum, quase como uma brincadeira – ou assim pareceria se o primeiro álbum de Tuca não fosse, no geral, tão sério. Ah, não deixem de ouvir "La Question", vale muito a pena, embora meu francês macarrônico não me permita entrar em detalhes acerca das músicas. Vale especialmente por ser o melhor disco de Hardy e pelo violão de Tuca.
Hoje Tuca teria 64 anos. Não saberemos jamais o que ela teria feito. Esse é mais intrigante dos músicos que morrem jovens, a gente sempre fica pensando no que ficou por vir. Pensar nisso me deixa um tantinho melancólico.
P.S. A versão “oficial” da “vida e obra” de Tuca deixa a desejar, mas é a melhor fonte de informação que encontrei até agora: http://br.geocities.com/cantoras_brasil/cantoras/tuca.htm
Sexta-feira, Setembro 19, 2008
Loronix
Cheguei ali por acidente procurando álbuns dos irmãos Abreu (outro item musical que dispensa qualquer apresentação) e fiquei encantado com o trabalho de arqueologia da música empreendido ali. Os LPs disponibilizados podem ser descarregados em mp3 ou FLAC, o que é uma coisa maravilhosa para os puristas em busca do som não comprimido. Loronix faz o que todas as gravadoras deveriam estar fazendo a muito tempo mas nunca tiveram vergonha na cara de levar a cabo (preferem chorar os lucros perdidos com a internet quando poderiam estar oferecendo obras relevantes em CD para o público epecializado que adoraria pagar para pôr as mãos em tais preciosidades).
Ficam meus parabéns, e o endereço:
http://loronix.blogspot.com/
Sexta-feira, Setembro 05, 2008
Eleições 2008
O impacto da energia que a mulher levou para o ticket republicano foi espetacular. Tanto mais por motivo da maneira como se deu. Palin não foi falar diante de seu partido com o status de Verbo encarnado que toda a mídia norte-americana (com as honrosas exceções de sempre, aquelas em geral desconhecidas no Brasil) tentou conferir a Obama. Palin apareceu como uma mulher absolutamente simples, cujas preocupações são as mesmas dos americanos comuns, cuja história é a de uma pessoa comum que, diante das circunstâncias que se apresentaram em sua vida, teve coragem de alçar-se ao primeiro plano da política em seu estado. Foi assim que sua mensagem tornou-se tanto mais pungente, impressionou por não tentar impressionar.
Assisti a convenção do Grand Old Party e fiquei bastante satisfeito com o que vi. Não se tratou de um espeáculo de fogos de artifício, nem de uma retórica lustrosa que não passasse de mera flatus vocis. A convenção se preocupou em apresentar tão somente a história e o caráter de seus candidatos, o que fez muito bem, e trouxe um entusiasmo para as fileiras republicanas que não se via ao longo de quase todo o tempo de campanha até agora. A figura de Palin falou fundo ao coração dos conservadores (não só às mulheres mais aos homens também, como bem apontou Chris Mathews ontem na C-SPAN e Ann Coulter hoje na Fox News), McCain fez um discurso simples e direto, de modo a marcar uma grande diferença entre si e Obama, a idéia de straight talk, opondo o estilo franco e direto ao sinuoso e floreado discurso usado pelo democrata para convencer os americanos a comprar castelos no ar.
Curiosamente, fica a impressão de que a promessa de mudança na política americana é mais realizável por meio dos republicanos do que pelos democratas. O discurso de Obama fala sobre mudança, mas fala sobre mudança como algo abstrato, como se a mudança fosse um ideal a ser perseguido, como se ele trouxesse mudança e isso fosse uma coisa boa. Até aí vá lá, mas o problema do discurso vago sobre mudança é o mesmo do discurso petista da primeira campanha bem sucedida de Lula, simplesmente deixar que as pessoas colocassem na grande categoria de coisas a serem mudadas tudo aquilo que as incomoda, sem que isso implique da parte do candidato a mudar o que quer que seja em específico. Trata-se de um embuste completo. No mais, o programa de Obama não traz nenhuma mudança em relação àquilo que seu partido vem propondo há anos e anos.
Já a chapa McCain/Palin mostra duas pessoas que ao longo de suas carreiras agiram por conta de seus princípios sem o menor problema em passar por cima de membros do próprio partido e sem muita preocupação pessoal com sua própria imagem. A figura de Mavericks, usada para descrevê-los, reflete esta postura. Eles são os candidatos mais independentes da corrida, e por tanto mais capazes de trazer à luz a tão esperada mudança.
Entre a velha empulhação democrata e essa estranha combinação de republicanos de um modo ou de outro à margem da chamada elite de Washington, creio que seria muito mais interessante ver os segundos chegarem ao poder. Certamente mais interessante do que ver no salão oval mais um homem da elite intelectual americana, esquerdista, rico, cuja única distinção de todos os outros democratas (presidentes ou candidatos) em um passado recente é a circunstância de ser mulato (porque até onde seu, filho de pai negro e mãe branca é mulato, não negro), e isso em si não vai fazer a mais remota diferença em sua política (afinal de contas, a vasta maioria dos brancos esquerdistas americanos já defende ação afirmativa, única política na qual poder-se-ia esperar que um presidente negro implementasse com mais afinco que um branco). A esse propósito vale lembrar que tão imbecil quanto não votar em alguém pelo fato de ser negro é votar em alguém principalmente por essa razão. Aliás, essa é a definição mesma de racismo.
Continuamos a acompanhar com interesse o curso dos eventos. Sem mais para o momento, resta torcer por uma vitória republicana, mas sobre isso é muito cedo para falar.
Terça-feira, Agosto 19, 2008
Pensamentos Sobre o Tabagismo
Diante da crescente mobilização popular anti-tabagista promovida em diversos lugares no mundo, normalmente orquestrada com apoio institucional de governos e campanhas milionárias, envolvendo desde processos judiciais, filmes e programas de TV até aquelas manifestações do dia a dia feitas por particulares reprovando os fumantes por, ora, fumarem, achei por bem dedicar algumas linhas ao assunto. Trato aqui da argumentos mas também de minha experiência pessoal, que acho pertinente a fim de mostrar diversos aspectos do problema e a fim, também, de sair abertamente “do armário” em relação ao meu próprio hábito.
Sendo batista de criação, e tendo por pai um professor de educação física, tudo que ouvi sobre o tabaco fazia-me crer que fumar um cigarro era pior do que abraçar o satanás. É que crente em geral não se preocupa tanto com coisas como mentir um pouquinho, falar mal de alguém pelas costas (com as mais santas intenções), trapacear no imposto de renda, ou outras coisinhas assim, mas se você passar a mão na mulher do vizinho, der um “tapa no beiço” de vez em quando ou fumar o cigarro, ah... As portas do inferno se abrem diante de você, pérfido pecador! Assim tive todos os incentivos para não fumar (e igualmente não beber e não sair com a mulher de ninguém) - desde a ira relativamente contida do professor Gilberto até a fúria do Soberano, o Senhor - conforme o que me diziam. Levei muitos anos para descobrir que depois de fumar eu não houvera me tornado uma pessoa malvada. Ainda possuía muito amor e Jesus no coração (falo sério) e mais, percebia agora muito melhor como se formava o mecanismo do preconceito (sentido na pele), pois ao investigar o assunto, não vi nada no ato de fumar que contrariasse o cristianismo, mas pelo contrário, vi no fumante uma pessoa até mais tolerante na convivência com os outros.
Curiosamente, aquele entendimento de origem puritana – fumar seria coisa do diabo, bad, very bad - que acabou sendo reforçado pelas pesquisas daqueles mesmos cientistas do Reich alemão que usavam judeus como ratos de laboratório (a Alemanha nazista foi a primeira nação a combater abertamente o tabagismo por razões de saúde - estranha coincidência com nosso cenário político atual) é hoje, muitos anos passados, abraçado por pessoas adeptas da religião do saudável, do light, do bem estar, da harmonia; gente cuja perspectiva de felicidade, por tanto, está menos no céu do que nesta Terra - mais um padrão mental perigosíssimo - e está disposta a condenar não só ao inferno, mas a um confinamento domiciliar, às vezes nem sequer isso, todo aquele que incorre em um hábito que polua seus sonhos de um mundo perfeito. Essas pessoas confundem o hábito com o monge, ou melhor, o hábito de fumar (que consideram nojento) com a pessoa do fumante, que passam a considerar nojenta. Ora, uma pessoa nojenta deveria ficar mesmo em casa, trancafiada, pois sua visão causaria um dano estético irreparável no ambiente ao redor do não fumante, o cheiro do cigarro acabaria com o aroma do perfume delicioso do não fumante, e por aí vai...
Esse tipo de anti-tabagismo não é falso moralismo, é moralismo nenhum. Mais uma formidável ocasião na qual o psicológico atropela o lógico: considera-se imoral aquilo que é meramente contrário ao próprio gosto. Aquilo que incomoda o nariz passa a ser visto como falta de caráter, por como seria boa a pessoa que impõe tamanha pena sobre meu narizinho, acostumado com o ar puro das caminhadas sob o sol da manhã, ou o cheiro inebriante de incenso durante uma seção de Yoga, algo maravilhoso, cósmico, e o mais importante: oriental! Afinal aqueles orientais é que sabiam das coisas. Esse negócio de tradição ocidental de liberdade individual está estragando a cor da aura de muita gente... Assim, o sujeito não é só um fumante, é um canalha, e como toda a mídia passa a fazer coro com a opinião desses tipos, e tantos outros tenham achado por bem fazer coro com a opinião da mídia – afinal ninguém tem tempo para pensar quando se pode comprar as idéias numa banca de jornal (onde antes se podia comprar também cigarros) e o circo está montado: agora é só entregar os fumantes aos leões.
Com relação à concepção generalizada de que o cigarro deve ser banido por causa do dano provocado por fumo passivo, duas coisas podem ser ditas a respeito. A primeira é que ao contrário da crença popular, fumantes costumam ser pessoas educadas, fumam nas áreas para fumantes de restaurantes, não soltam baforadas nas caras dos bebês, se estão visitando alguém, perguntam antes se podem fumar no quintal ou na varanda, e por aí vai. Se alguém, no entanto, falta com a educação, a resposta mais simples é reclamar com a pessoa, não é chamar a polícia e aplicar uma multa! Nenhum ser humano normal precisa ser convencido pela lei a cumprir regras de boa educação (e sim, os fumantes são, para fins de direito, seres humanos normais). A segunda está publicada neste interessante artigo: http://www.data-yard.net/science/articles/lies.pdf o qual mostra o tipo de informação viciada que está alimentando o simulacro de moralismo dos anti-tabagistas.
Nossa sociedade mudou. Antes era puritana porque condenava o adultério e o hábito de beber. Agora estamos achando normal cantar a mulher alheia e vinho faz bem à saúde, de modo que está permitido. Fumar, no entanto, o único hábito que não altera seu estado mental e não implica em qualquer imoralidade está ficando proibido. Ao mesmo tempo, outras drogas são liberadas e, para meu grande espanto, as cruzadas moralizantes ainda são feitas contra o cigarro! É uma atitude mais que contra producente, é cretinice mesmo. Um exemplo de vítima dessa atitude é o príncipe dos pregadores, o reformado Charles Haddon Spurgeon, que fez o seguinte pronunciamento numa das ocasiões em que confrontado acerca de seu hábito de fumar charutos:
"Well, dear friends, you know that some men can do to the glory of God what to other men would be sin. And notwithstanding what brother Pentecost has said, I intend to smoke a good cigar to the glory of God before I go to bed to-night.
"If anybody can show me in the Bible the command, 'Thou shalt not smoke,' I am ready to keep it; but I haven't found it yet. I find ten commandments, and it's as much as I can do to keep them; and I've no desire to make them into eleven or twelve.
"The fact is, I have been speaking to you about real sins, not about listening to mere quibbles and scruples. At the same time, I know that what a man believes to be sin becomes a sin to him, and he must give it up. 'Whatsoever is not of faith is sin' [Rom. 14:23], and that is the real point of what my brother Pentecost has been saying.
"Why, a man may think it a sin to have his boots blacked. Well, then, let him give it up, and have them whitewashed. I wish to say that I'm not ashamed of anything whatever that I do, and I don't feel that smoking makes me ashamed, and therefore I mean to smoke to the glory of God."
In: Christian World, on September 25, 1874
Mudando um pouco a atenção do argumento para o problema teológico, que muito me preocupa ultimamente, devo lembrar que os argumentos do tipo “templo do espírito”, recomendando cuidado com o corpo ,baseiam-se normalmente no texto de I Corínthios 6:19-20. Se alguém é imbecil o suficiente para retirar esse texto do contexto e aplica-lo ao tabagismo, eu até posso perdoar ( se bem que já fui chamado de burro por que sou fumante, porém ao menos ainda sei ler...), mas creio que exista uma certa má-fé por parte daqueles que, mesmo com as melhores intenções, ignoram que a passagem começa no verso 12, e trata sobre imoralidade sexual, não sobre cigarros.
Os fumantes, espremidos entre evangélicos e seculares preocupados com os “pecados” alheios, estão suportando um mau bocado. Como já disse, fui chamado de burro por gente, francamente, muito mais burra do que eu. Já vi gente fazer cara feia para o meu cigarro mesmo estando a uma distância enorme. Assim sendo, mesmo um fumante cuidadoso acaba tendo contato direto com diversas amostras da estupidez humana, não em si mesmo, mas nos outros. Estou cada vez mais convencido de que falta amor no mundo...
Segunda-feira, Agosto 18, 2008
Louvorzão
A despeito do meu horror a dicotomias simplistas temos, grosso modo, dois pólos disputando o destino do “momento de louvor”. O primeiro deles busca uma liturgia tradicional, com os hinos consagrados nos cantores e hinários, normalmente o grupo é composto de irmãos mais velhos (sou um escritor antiquado, não acho que velho seja ofensa e jamais aderirei ao neologismo politicamente correto “melhor idade”), pastores comprometidos com a ortodoxia teológica e membros que, a meu exemplo, são jovens com alguma preocupação intelectual no que se refere ao conteúdo da mensagem proferida durante a liturgia em todas as suas formas. O segundo grupo costuma ser mais jovem, envolvido com as bandas que tocam na igreja, consumidores de música gospel e preocupados com uma efetiva transmissão de emoção no culto, bem como com o impacto da mensagem a ser proclamada.
Primeiro um pouco de história. Entre os protestantes, os luteranos foram os primeiros a utilizar hinos que incorporavam o cancioneiro popular alemão da época de modo a produzir, em 1524 o Pequeno Livro de Canções Espirituais. Lutero mesmo foi responsável por algumas dessas composições, além de ter iniciado a tradição dos chorales cujo ápice da perfeição foi atingido por Johan Sebastian Bach. Bach, no entanto, não era bem visto pelos pietistas, que favoreciam uma música mais simples, era sim querido dos luteranos, entre os quais podia exercitar sua arte como mais gostava. Já anglicanos e reformados não compartilhavam o entusiasmo luterano por hinos de composição livre, acreditavam adequados somente os hinos contidos na Bíblia, os Salmos em particular. A idéia era de que seria imodesto pretender compor algo mais perfeito do que a Palavra já dispusera nas canções que contém. Ah, e sem instrumentos. Mais adiante na história, Calvino, entre outros, introduziu a paráfrase de Salmos para que a congregação cantasse. A idéia era que a congregação conseguisse também memorizar os hinos e assim ter algum proveito em sua educação teológica. Tal era o intento de John e Charles Wesley, cujas composições e adaptações ajudavam na compreensão da teologia envolvida nos temas cantados. Dessa maneira a Inglaterra abraçou os hinários. Nos Estados Unidos, embora os hinos tenham levado mais tempo para se desenvolverem, especialmente dada a ênfase puritana na simplicidade em tudo, foi estabelecida após a Guerra Civil uma tradição de spirituals e, durante o avivamento durante o século XIX, surge a música gospel, combustível dos revivals que varreram o país convertendo milhares. A notoriedade dessa música estava no impacto que ela trazia enquanto meio de evangelização (breve nota: foi o estilo musical que formou e marcou a carreira do rei do Rock and Roll).
Os mais recentes desenvolvimentos da música na adoração, com o advento do movimento carismático em especial, são o xis da questão. São a corrente abra;cada pelo segundo grupo mencinado na disputa pelo louvor. A música produzida nesse período e por esta corrente procura acima de tudo estimular a emoção e a imaginação do ouvinte, caracterizada por alguns como apelo ao lado feminino das pessoas, por outros como porta de entrada para alguma medida de êxtase místico espiritual. (Não disputo a validade de uma busca por tal sentimento, mas a maneira pela qual isso se dá é algo que tem um profundo impacto sobre a vida de uma congregação diante de Deus.) Quando se chega a esse ponto, já se pode imaginar, a razão saiu pela janela. Estaria o primado do pregador na cultura evangélica ameaçado? Por quê?
Fico matutando, em meio à disputa sobre o louvor na igreja, que se o principal objetivo é o cumprimento da grande comissão, e presumindo que estão em atrito dois grupos de cristãos sinceros, então só restariam duas questões a se resolver: a forma da mensagem e o conteúdo da mesma.
A forma da mensagem, no caso da pregação, favorece a persuasão racional. Trata-se da maneira mais fácil de provar por A mais B que Jesus ama o pecador, morreu por ele e que Deus irá chamar seus escolhidos para viver eternamente no céu. Falando desse jeito fica chato, embora preciso. Existe uma infinidade de nuances teológicas a ser explorada e a firmeza da fé de uma congregação, sua compreensão da consistência da fé professada – algo freqüentemente ignorado por uma geração que não viveu os dias em que se levava a fé a sério e em que os embates contra certos elementos nocivos dentro da igreja eram ferrenhos – depende em grande parte do que é exposto na pregação. Justamente por conta da forma expositiva, a mensagem pode ser analisada e inclusive criticada quando é o caso. Nossas defesas psicológicas estão normalmente em alerta quando lidamos com o discurso que declaradamente defende certas idéias.
A forma da música de louvor contemporânea, além da facilitar a memorização da mensagem, como já bem sabia o velho Lutero, pode ser usada para potencializar o efeito da mensagem. Isso ocorre por meio do apelo psicológico natural que o discurso em forma poética – embora isso seja muitas vezes feito com a poesia mais canhestra ultimamente – possui. É um bom meio de convencer. Acrescente-se a isso que no momento do louvor a congregação canta junta, o conforto e a afirmação encontradas nessa atividade (como bem explica a psicologia de massas) derrubam as defesas psicológicas que o indivíduo possui. O discurso em primeira pessoa, carregado de símbolos sentimentais (que renderam milhões a diversos cantores, bandas e duplas sertanejas) aplicado ao louvor, vira instrumento poderoso de evangelização, mas também pode servir como poderoso alienador das mentes dos que cantam sem refletir.
Eis o ponto ao qual gostaríamos de chegar. A reflexão, o culto racional a Deus, é o que permite ao cristão conservar a fé intacta, sem se corromper. É um dos pilares da Reforma a reflexão séria a respeito da pessoa, do caráter, das obras e do plano de Deus. Como a breve exposição histórica mostra, grandes teólogos dedicaram sua atenção à construção de um hinário consistente com suas visões teológicas. Os efeitos do conteúdo sadio na forma musical foram vistos pelo mundo todo. Hoje, ao invés de servir como apoio à pregação, a música está em muitos lugares se substituindo a ela. Conforme já expusemos acima, o trabalho expositivo pode ser relevado com alguma facilidade, os efeitos do louvor são mais sutis, porém mais duradouros. É como o velho teste. Ninguém lembra na sexta-feira como foi o sermão de domingo, mas muitos sabem quais as músicas que foram apresentadas. Mais ainda, são capazes de repeti-las.
Agora, como se não bastasse isso tudo, um elemento explosivo foi jogado nesse coquetel evangélico. Um elemento externo ao contexto específico da igreja e que afeta a todos os cidadãos igualmente: a imbecilização geral da população. As novas gerações – a minha é uma grande vítima disso – estão recebendo uma educação que mais parece uma piada de mau gosto. Muita gente dentro das igrejas não gosta dos hinos antigos (aqueles que possuem relevância teológica) porque é burra demais para entender o que dizem. Preferem cânticos mais atuais e mais fáceis, limitados na linguagem e no escopo, um movimento indesejável de afastamento do divino e aproximação com o humano. Não quero dizer que dedico menos amor a pessoas burras, mas é que existe tal coisa como a ignorância nociva. Não são poucos os que possuem uma tendência a considerar tudo o que não entendem como algo alheio ao seu interesse, o que não passa de uma grande cretinice. A poesia fácil de entender elogia o horizonte intelectual do ouvinte e o acomoda em si, ao invés de lança-lo em busca de um conhecimento mais completo do Deus. O emotivismo exacerbado e o apelo à experiência pessoal fazem com que o louvor que deveria dirigir-se a Deus trate principalmente da experiência humana. Não é de se surpreender que este tipo de música acabe se afastando, em umas tantas ocasiões, da sã doutrina. Os esforços de um pregador em estabelecer uma fundação teológica sólida para a congregação é solapada pelo trabalho do grupo de louvor, a despeito de suas melhores intenções. As letras compostas com o ouvinte em mente, mais do que a Palavra, acabam fazendo, por vezes mais mal do que bem, gerando uma série de problemas dentro da igreja e contribuindo para a crescente confusão de um público que por si só já não é e não se quer esclarecido.
Ainda resta um aspecto a ser esclarecido: e se o objetivo principal do louvor não for o cumprimento da grande comissão? A música na igreja possui também um outro papel não menos importante, qual seja a exaltação da glória de Deus. Nesse caso o argumento se complica. O caso é que a experiência musical é uma experiência bastante distinta da experiência humana do mundo. O caráter de contemplação pura da beleza de uma composição musical possui inúmeras semelhanças com a contemplação da glória de Deus. Em ambos os casos, nossa experiência destas realidades acaba em si mesma. Assim como a apreciação da música não serve em geral um propósito além de si, a contemplação da glória divina acaba onde começa, em Deus. Não é difícil imaginar a razão pela qual a música nos tenha sido dada, quando consideramos seu caráter quase extra-mundano (é claro que tenho agora em mente muito mais a música de alto nível). Nessa perspectiva de que a música é algo mais sublime do que normalmente cremos que ela seja, o papel do louvor afasta-se ainda mais da perspectiva meramente humana de causar emoções ou de ser facilmente assimilada pelo público. A música passa a cumprir um papel de adoração pura e simples, e uma música feita com o propósito de atender ao mínimo denominador comum humano (e assim ser assimilada e repetida pelo maior número possível de pessoas) é justamente a mais indigna de ser apresentada diante de Deus.
A verdadeira poesia, da mesma forma, presta-se a dizer - de maneira compacta e elegante, abrindo-se para uma pletora de significados - aquilo que a linguagem humana é incapaz de expressar corretamente, mas que é parte da nossa experiência. Não é à toa que a própria Bíblia é repleta de poesia. Dessa forma, nossas línguas e mentes imperfeitas podem transmitir um pouco da experiência da perfeição divina. Querer que a função da poesia seja meramente uma clareza didática e patética é aleijar o culto religioso de uma das formas mais apropriadas para louvar a Deus e contar quem Ele é. Que muita gente seja incapaz de apreciar, sequer no nível mais simples, a diferença entre a grande arte sacra e as coisas que se tem criado nas igrejas ultimamente é nada menos que um sinal dos tempos.
Sou levado, por estas razões, a concluir que a barreira entre o secular e o sagrado deve ser mantida em alguma medida, a despeito do desejo mais ardente de converter milhões ou de entreter uma congregação, ou corremos o risco de abraçar o mundo perdendo a Deus no processo.
Quarta-feira, Agosto 06, 2008
De volta à carga
Não escrevi aqui ao longo de um bom tempo. Isso acontece e quando em quando. Seria fácil demais empinar o narizinho e dizer que "O que não se pode falar, deve-se calar". A verdade é bem distante das sofisticadas tentativas de enfiar o mundo dentro de uma forma lógica - embora deva reconhecer que o conteúdo da citação é tão verdadeiro quanto evidente. O caso é que estive físicamente cansado demais para dedicar qualquer tempo a uma atividade que foi, durante um longo período, a forma mais rica de contato com o mundo que tive.
Parte do problema se deve ao fato de que estive lutando com alguns volumes de filosofia que restam mal digeridos na cabeça, o que por algum tempo me pareceu mais interessante do que o prazer de dizer qualquer coisa, por mais importante que fosse. Não tenho, no entanto, coragem e nem vontade de abandonar esta página às moscas. Fui acordado do meu sono mental pelo anúncio do post abaixo, o lançamento da nova página do Olavo de Carvalho. Quem conhece a obra do filósofo e lê a minha modesta página sabe que ele em muito me inspira e - embora jamais o tenha conhecido - gostaria muito de pensar que sou de algum modo seu aluno.
O segundo elemento que me pôs novamente a escrever foi o efeito levemente anestésico do estudo, ainda que em seu princípio, de Ludwig Wittgenstein. A maneira pela qual ele dissolvia problemas filosóficos por meio de sua terapia, por estranho que pareça, aliviou um pouco o peso do torvelinho de leituras e acontecimentos políticos e sociais que estavam a pôr-me louco. A serenidade com a qual Wittgenstein coloca todo em volta de lado e vai tratar da forma de vida da linguagem ajudou em muito a necessária tarefa de assumir uma perspectiva diferente diante dos fatos, recompor as energias retornar revigorado ao ciberespaço. Quando tiver que cuidar das outras tantas formas de vida nas quais estou metido, aí a porca vai fumar, mas deixemos as agonias de lado. Se não escrever por prazer ou por necessidade, por que seria?
Como de boas intenções o inferno está cheio, já fomos logo reformulando o blog - modestamente, como manda o bom conservadorismo - incluindo alguns links e excluindo outros, e tentaremos em breve ousar ainda mais.
Estou preparando uma provocaçãozinha sobre o culto em diversas igrejas agora que estou a uma distância segura para fazê-lo. Logo sai. Assim como outras coisas interessantes que nos ocorrerem no caminho.
Pedidas as desculpas, estamos de volta.
Seminário de Filosofia
É o novo site de Olavo de Carvalho. Um esforço de publicar a montanha de material que o filósofo produziu ao longo de duas décadas de atividade pedagógica. Já assinei e recomendo.
Sexta-feira, Abril 18, 2008
Observações rasas
As tardes de Dallas são curtas para tudo o que eu gostaria de fazer, mas sobra tempo suficiente para tudo que a preguiça me deixa realizar. Mesmo assim vamos levando. A despeito de todo o molho barbecue, do sotaque gozado e da indumentária caipira, o povo é bastante simpático. Não conheci ninguém muito profundo, mas talvez por isso eles sejam tão alegres. Com 250 canais de TV por 50 dólares ninguém precisa ser muito intelectual. Esta constatação me deixou um bocado solitário uns dias atrás.
Não gosto de reclamar, mas não fosse pelas reclamações o mundo seria meio sem graça. Seria um poço de estoicismo que tornaria a vida mesma insuportável. Eu mesmo, que nunca fui de querer fazer grandes mudanças na vida e sempre suportei as inevitáveis com aquela cara de paciência bovina, ruminando os eventos que passavam por mim, acabei casando. Casar é a coisa mais perturbadora que existe. É introduzir na sua vida uma pessoa que está insatisfeita a maior parte do tempo. Foi a melhor coisa que fiz na vida. Agora sinto-me a salvo de minha própria inércia. A dinâmica funciona bem; há quem não concorde, mas para mim deu certo.
Agora posso reclamar à vontade, sem medo algum, pois no fim das contas, por mais que me achem um imbecil, há uma mulher que me desaprova por todas as razões erradas, mas me ama pelo que sou. Quero ver alguém arranjar um acordo melhor...
Aqui em Dallas as pessoas vão muito ao shopping. Há que nunca tenha visto o mar ao vivo, mas já foi ao shopping umas tantas vezes. Eu que nunca liguei muito para o mar acho que o shopping não é de todo mau. Ao menos não tem frango com farofa, só umas tantas bandejas na praça de alimentação. Em termos de entretenimento a cidade tem algo a oferecer. Eu é que nunca fui descobrir o que era. O que não me sai da cabeça é que Fort Worth, a outra ponta do "Metroplex" é uma cidade muito mais caipira e ao mesmo tempo muito mais cosmopolita do que Dallas. Lá a vida cultural é mais interessante, e concomitantemente existe um inegável jeitão de interior (velho oeste, para ser mais exato). Paradoxo inegavelmente intrigante. Talvez por isso a cidade receba tantos turistas.
Pelo mesmo preço de uma Pizza Hut você pode comprar uma pizza no Buca di Peppo. A pizza vem com pão e um pouco de pimenta para quem gosta. Massa fina, feita na hora, cheirosa e caprichada. Um delícia. Aqui você pode comer muito mal, mas também pode comer muito bem. É questão de escolha. Embora os EUA ofereçam muitas opções, acho que a cultura de junk food persiste por falta de bom gosto mesmo.
A vida adulta é cheia de pequenos aborrecimentos. A vida infantil só é aborrecida quando nos metemos a imitar os adultos. Todavia, a vida adulta possui uma série de refinamentos que a vida infantil não possui. A vida imaginada, rica, de um menino é substituída por um mundo bem mais pobre um possibilidades, menos imaginativo, porém mais rico em detalhes. O homem é mais capaz de perceber as muitas variações sobre o tema do trabalho, da vida familiar, do sexo oposto, da arte, da cozinha, do convívio social. O que gera angústia em muitos adultos é a incapacidade de superar as possibilidades infinitas da imaginação a fim de abraçar as sutilezas da maturidade. Vêem o mundo adulto do qual participam com os olhos de uma criança e o acham aborrecido. Nada mais natural. Poucos são capazes de empreender a tarefa intelectual de amadurecer. Se digo isso, é por que a vida toda lutei para sair dessa infantilidade ordinária na qual observava viverem os homens.
Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008
Salvação e Juízo
Pouco consolo há para os que gostariam de ver sociedade e consciência harmonizando-se conforme uma ordem muito maior, a divina, pois todos os dias somos confrontados com o terrível som dos mortos e feridos pelas guerrilhas, pelos criminosos, pelos ditadores. Pouco consolo há porque estes três estão unidos e prontos para tomar de assalto o continente laboriosamente catequizado pelos jesuítas e evangelizado pelos missionários ao longo de séculos, destruindo a obra de salvar almas em prol da construção do paraíso terrestre agora.
Porém, aqueles que pretendem entender o universo melhor que o criador nos verão mortos, se lhes aliviar as consciências, pois não suportam a verdade. Não suportam ser expostos aos próprios pecados e à própria insignificância. Nós, eleitos por Deus para herdarmos o mundo com Cristo, passamos por isso, e nos arrependemos, confrontamos nossa miséria, nossa degradação radical, nossa alma morta pelo pecado sob cujo signo nascemos. Somos, portanto, mais maduros, menos apressados em perturbar ainda mais a fúria do mundo criado e caído, lançado em confusão. Ao olharmos paro alto buscamos ali o bálsamo para estas feridas, a Palavra de Deus, as consolações do Espírito. Aí nos detemos, basta.
Estes que procuram estabelecer seus reinos aqui são poderosos aos olhos dos homens. Nós nada faremos além do que nos manda o Senhor. Se falamos contra eles é para que, tendo sua insensatez exposta, se arrependam. Mas é necessário que falemos. Ao alçarmos nossas vozes contra o nefasto poderio desta esquerda latino-americana, ou mesmo de toda a esquerda, em sua revolta contra Deus, partilhada por todo bom revolucionário, não anunciamos nada novo. Anunciamos a transitoriedade dos projetos humanos, casas na areia, que caem como todos os impérios. Essa é a melhor visão da política a partir da teologia, a meu ver. Buscamos valores mais elevados, nada transitórios, e os buscamos fora de nós, para que não nos gloriemos. O resto está condenado ao pó.
Dessa forma me veio o consolo. Antes, no entanto, li esta palavra: "Poderá um trono corrupto estar em aliança contigo? Um trono que faz injustiças em nome da lei? Eles planejam contra a vida dos justos e condenam os inocentes à morte. Mas o Senhor é minha torre segura; o meu Deus é a rocha em que encontro refúgio. Deus fará cais sobre eles os seus crimes, e os destruirá por causa dos seus pecados; o Senhor, o nosso Deus, os detruirá!" (Sal. 94:20-23).
O trono corrupto não possui aliança com Deus. Se o afirma, é mentiroso. As injustiças, as vemos todos os dias, sem cessar. Muitos são os que preferem comprometer os princípios em nome de seus objetivos, sacrificam tudo e todos em nome de suas revoluções e seus ideais. Somente em Cristo podemos viver por um ideal e não trair nossos princípios. Se a verdade ó só uma, se nossa meta é viver com Deus, os princípio, os mandamentos, a Graça justificadora, se confundem e não se contradizem, antes cooperam para nos levar ao objetivo.
Já que cremos nesta verdade, e a examinamos de coração sincero, não somos confundidos pelas mentiras do Acusador, nem pelas mentiras daqueles que são da parte dele. Já é hora de deixarmos de comprar a paz perpétua e a felicidade futura daqueles que não podem oferecê-la. Quando fala-se do populismo ressurgente na AL é esse o problema que enfrentamos. As pessoas estão muito prontas a crer a todo custo, mas não conhecem aqueles em que crêem como nós conhecemos e buscamos a Deus. Serão desapontadas para crer no próximo salvador, sem ver que a salvação já chegou, uma única vez, e depois virá o juízo.
Sexta-feira, Janeiro 25, 2008
Desta vez, política e religião.

David Horsey fez esse cartoon muito engraçado sobre a Hillary Clinton no Seattle Post-Inteligencer. Ela, assim como Obama, estão procurando amelhar os votos dos evangélicos aqui nos EUA. Só espero que os últimos tenham a sensatez de não acreditar no canto da sereia (a maioria não vai). Os Democratas sempre acabam agindo como os vermelhinhos que são, empurrando aborto, casamento gay e perseguição ao cristianismo para a população.
Já no Brasil, a extrema direita se espelha no Partido Democrata norte-americano. Ou eles são muito estúpidos, ou crêem piamente que o somos nós. O máximo direitismo permitido no Brasil se inspirando no esquerdismo atroz norte-americano é algo a se pensar. O fato de terem conseguido empurrar esta empulhação para o eleitorado mostra como o Brasil se situa em um universo paralelo, onde nada é igual ao resto do mundo. O Brasil é o mundo bizarro (alguém aí lia Super-Homem?), onde o certo é errado, o bom é mau. Sim, no Brasil o Lex Luthor é herói e o Super-Homem é vilão. Quer dizer... Tem gente aplaudindo o Lula de pé como se ele prestasse para alguma coisa, é óbvio que tem caroço nesse angu.
Voltando ao tema inicial, fico intrigado com o fato de o eleitorado "evangélico" não fazer como fazem nossos irmãos do norte, aceita o esquerdismo lulista como se isso não fosse em si a negação mesma do evangelho. Se o Brasil ainda é vítima do populismo messiânico e da propaganda de esquerda é porque não estamos conseguindo fazer a diferença que deveríamos (acreditar que vai aparecer o salvador da pátria não é compatível com a idéia de que o homem é pecador, caído, danado e ruim mesmo...). A maioria das igrejas inda não é capaz de tomar uma posição firme a respeito do futuro do país, como se o negócio fosse esperar o reino dos céus e deixar o Rabudo pondo fogo aqui na terra. A religião é uma força conservadora poderosa, mas quando as lideranças religiosas preferem se calar diante da ascenção esquerdista, vê-se que estão compactuando com o movimento que visa exterminá-los. Depois vão reclamar nos cultos da falta de ética, valores e não sei mais o que por parte do "mundo". Mas deixam o povo livre para eleger o anti-cristão, o abortista, o amigo do movimento gay... Não quero ouvir um a de reclamação quando tem pastor sendo preso em Cuba simplesmente por exercício regular da profissão por parte daqueles que nada fizeram diante da eleição do amigo de Fidel no Brasil.
Terça-feira, Novembro 27, 2007
Lições de Minha Avó
Hoje estive pensando em minha avó. Com toda sua simplicidade, ela descrevia, ao longo de nossas conversas longas e agradáveis, o que esperava encontrar quando chegasse ao céu. Minha infância foi povoada dessas imagens relatadas por minha avó. Eu ficava escutando, entre curioso e divertido, enquanto ela imaginava, ou talvez antevia, as pessoas que encontraria e a alegria imensa que sentiria ao lado de Deus.
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Sábado, Novembro 24, 2007
A mídia do Contragolpe. Até o título é bastante oportuno. Sofremos um golpe por parte da esquerda. Um golpe que substituiu inclusive nossas melhores esperanças de ter algo parecido ocom uma cultura no Brasil por um amontoado de ideologias em torno das quais "artistas" e "intelectuais" auto intitulados procuravam construir alguma coisa que fizesse vir logo o paraíso hipotético prometido pelo esquerdismo revolucionário, e que nunca veio. Agora, é chegado o momento de estabelecer uma contracultura conservadora (também uma contracultura cristã - sem nenhuma referência ao site defunto de Rob Schalpfer - é necessária, mas isso é outra história) a fim de estancar a decrepitude na qual fomos lançados de corpo e alma.
Quando eu ouço - como de fato ocorreu um pouco antes de sair do Brasil - um senhor que apoiava a Ditadura e furava greve com a cabeça erguida defender o Lula, começo a pensar que alguma coisa fizeram nesses trinta anos passados que não é normal por qualquer padrão que se tenha. Espero que possamos acabar com esse estado de coisas como se fez nos Estados Unidos: demonstrando uma gritante superioridade intelectual e de caráter. Nada menos que isso pode trazer ao Brasil um sopro fresco de velhas novidades que um dia trocamos pelos sonhos destes iluminados que agora nos afligem.
Aproveitem o link, vale muito a pena.
Quinta-feira, Novembro 15, 2007
Bach, O Quinto Evangelista
http://www.bach-brasil.com/index.php?page=quintus
A apreciação da estreita ligação entre a arte superior de Bach e a Reforma Protestante é o que me cativou aqui. Confiram.
Terça-feira, Novembro 13, 2007
A Cuba de Barrueco

Muitas vezes escrevo sobre filosofia ou política, algumas vezes sobre arte, principalmente sobre música. Sempre achei um exemplo acabado de cretinice, principalmente por parte dos artistas, misturar as duas coisas. Vou tentar escapar de minha censura auto imposta e me aventurar a fazer essa mistura, pois é necessário ressaltar os exemplos formidáveis de artistas que, sem sequer fazer propaganda política, e dizendo mais com sua postura do que com manifestos e coisas do gênero, são capazes de se insurgir contra o mal imposto a milhares de homens e mulheres por governos opressores.
Muito embora prefira o Villa-Lobos dos irmãos Assad ao de Manuel Barrueco, tenho cá comigo que ele foi excepcionalmente feliz em todas as interpretações que escutei. Seu Bach soa como música feita diretamente para o céu, como, na minha opinião, Bach deve sempre soar. O álbum de Bach e deVisée é um dos álbuns que mais me marcaram (com a Partita no 2, BWV 1004 in D minor de Bach, a obra que me introduziu ao violão erudito) e sempre lhe serei grato por me ter proporcionado tão bons momentos na companhia de sua música. Um aparte pessoal: lembro de ter gravado na TV e assistido com meu amigo Eduardo uma apresentação de Barrueco em que ele tocava o Concierto de Aranjuez e algumas coisas do Chick Corea. Assistimos a fita tantas vezes ao longo dos próximos meses que ela quase não resistiu. Passavamos horas contemplando o vídeo, os olhos fixos nas mãos do violonista. Esse tipo de fascinação não é inédito em se tratando de um músico verdadeiramente extraordinário.