Então eis que estou aqui de novo, desta feita assistindo South Park, quando o professor das crianças, Mr. Garryson, solta a brilhante frase: "Não existem perguntas estúpidas, só pessoas estúpidas”, ao responder ao que era, obviamente, uma pergunta estúpida.
Estava pensando sobre a maneira como as escolas nos preparam para assistir às aulas. Somos encorajados a fazer qualquer tipo de pergunta, a não sair da sala com dúvidas, a perguntar seja lá o que for, e isso me deixava intrigado. O que é que leva as pessoas a abusarem tão descaradamente dessa prerrogativa do aluno moderno e soltar a todo o tempo as mais variadas perguntas imbecis?
Eu posso falar com segurança somente sobre mim, e devo dizer que faço poucas perguntas. Se o assunto não me interessa, é muito provável que eu não faça pergunta nenhuma e durma perfeitamente tranqüilo sabendo que ficaram pontos obscuros na exposição (inclusive na aula mesmo, se ninguém me perturbar), se não entender alguma coisa que interessa posso perguntar ou ir estudar (e normalmente prefiro estudar por conta), mas existem pessoas que insistem em ficar perguntando ad infinitum, e tem lá suas motivações. Existem aqueles que perguntam por ter uma dúvida legítima, os que perguntam para aparecer, aquelas que perguntam para ser simpáticas, aquelas que perguntam para pegar o professor em erro e aquelas que perguntam porque são endemicamente burras. Entre os que não perguntam nada existem os que não entenderam porcaria nenhuma, os que entenderam tudo e os que estão pouco se lixando para o assunto exposto.
Por tanto, se você está pouco se lixando para o assunto exposto aqui, recomendo que pare de ler e vá tirar uma soneca. É o que eu faria. Quanto ao resto do público, segue a exposição.
É evidente que quem tem uma dúvida legítima tem mais é que perguntar. Se você é suficientemente inteligente e faz uma pergunta, são grandes as chances de que vá fazer uma pergunta inteligente e suscitar algum tipo de comentário ou esclarecimento de proveito geral. O grande problema é que uma enorme parcela da população mundial se considera inteligente mas a maioria destes não o é. Ainda pior, vá lá dizer a uma pessoa que ela não é inteligente para ver a reação do dito cujo. Além de ser uma baita indelicadeza da sua parte (muito embora você possa ter razão), nunca se sabe que tipo de situação vai vir da revelação, normalmente não é boa. É como tentar dizer para alguém que ele ou ela não é bonito ou bonita. É espinhoso chegar ao assunto e o diabo é que às vezes é necessário (quem já teve que dar um fora numa feia, coisa que as mulheres normalmente fazem com naturalidade e nós homens não, sabe bem que a única coisa que não dizemos é que ela é feia por medo de aumentar a desgraça). Mas voltando à trilha, abandonada em prol dessa pequena digressão, vamos observar que pessoas se encontram internamente autorizadas a fazer perguntas estúpidas por se acharem inteligentes quando não o são, e não há praticamente nada que se possa fazer a respeito: ficamos à mercê de diversas perguntas idiotas.
Assim, de uma feita cobrimos os inteligentes e os burros. Vamos agora tratar dos cretinos e dos mal intencionados. Os cretinos, esses desqualificados mentais que pretendem disfarçar sua incapacidade ou conseguir algum tipo de aprovação da figura do “mestre” (por obra de alguma carência emocional ou por força de uma personalidade rasteira) gostam de ficar fazendo perguntas idiotas para que pareça que estão interessados ou que estão acompanhando o raciocínio. Parece-me que tamanha é a insistência para que os estudantes perguntem que os professores começaram a realmente acreditar que qualquer pergunta vale e a valorizar essas dúvidas imbecis que não passam de capachismo colegial. Responder perguntas cuja resposta é óbvia demais incentiva o “puxassaquismo” dos alunos ou então, no mínimo, faz com que os alunos intelectualmente prejudicados acabem por perder preciosas oportunidades de exercitar ao menos um pouco as cabecinhas.
Os mal intencionados são pessoas com uma agenda definida. Eles normalmente tem dois tipos de pretensão: a de saber mais do que o professor ou a de querer ensinar alguma coisa aos colegas. Costumam ser uns tipinhos profundamente chatos, detentores de alguma espécie de verdade da qual precisam convencer uma audiência de ocasião e costumam fazer perguntas de vinte minutos que nem ao menos terminam como perguntas. Eu não tenho nada contra a erudição alheia, mas convenhamos: há um tempo e um lugar; além do mais, me recuso a crer que existam tantos eruditos na faixa dos dezesseis aos vinte e cinco anos. Não é algo factível. Aqueles mais interessados em política são os mais emblemáticos casos de mal intencionados: estou bem próximo da realidade ao afirmar que toda a sala de aula de colégio, cursinho e faculdade de humanas tem um infeliz que para a aula para “presentear” os colegas com uma perspectiva marxista de qualquer assunto que esteja em pauta, seja a Revolução Francesa ou a história da embalagem do creme dental. Fora aqueles imbecis que ficam com o livro na mão esperando para apontar algum erro do professor; esqueceram de avisá-los que os problemas com figuras de autoridade são melhor resolvidos no consultório do psicólogo.
Não sei o que leva um sujeito a perder a mais remota noção de amor ao próximo e realmente acreditar que tem algo a ganhar tentando esfregar na cara de um professor os erros que comete ou desafiando a paciência dos colegas com longas exposições de opiniões alheias por falta de idéias próprias ou de identidade própria, o que dá quase no mesmo. Até o ponto em que isso envolve o professor e o aluno em questão não poderia ser mais indiferente, mas pare para pensar quantas horas de nossas vidas não foram desperdiçadas por causa de sujeitos que de nada vale ter sequer conhecido. Quantas horas preciosas que poderiam ter sido passadas jogando truco, bebendo cerveja, aprendendo a fazer mágicas com uma moeda, fumando um cigarro e tomando um cafezinho, lendo contos curtos de autores contemporâneos ou qualquer outra coisa certamente melhor do que ficar numa cadeira ouvindo uma pergunta cretina e a resposta normalmente demorada correspondente. Aproveite a vida. Ela normalmente acontece do outro lado da porta da sala de aula e qualquer coisa que amplie desnecessariamente o tempo perdido pode e deve ser encarada como ofensa pessoal a todos os outros envolvidos.
sábado, março 26, 2005
O filho pródigo à casa retorna
Eu posso dizer com toda a sinceridade (com uma explicação à moda de Schopenhauer) que não escrevi aqui por um bom tempo pura e simplesmente porque não quis. Sempre me pareceu um grande pecado que muitas pessoas, várias delas bem mais mais inteligentes do que eu, ficaram apaixonadas pelo som da própria voz ao longo do tempo. Isso leva alguém a executar monólogos intermináveis nos quais fazem desfilar sua erudição e sua argúcia dircursiva como quem brande uma espada com a qual corta as trevas da ignorância do pobre ouvinte ocasional ou do transeunte inocente (que não pediram para serem retirados de sua abençoada ignorância). Eu, que não me preocupo em iluminar a ignorância de ninguém e passo a maior parte do tempo refletindo filosoficamente sobre as implicações da interação entre o mundo que me cerca e o meu umbigo, não fiz questão de continuar a escrever quando a atividade não me parecia trazer proveito algum.
Parei de escrever recentemente porque não podia mais suportar as minhas próprias palavras. Estava enjoado do som de minha voz, da disposição das minhas palavras na folha de papel (sim, amigos da geração da internet, eu sou um orgulhoso portador e usuário de folhas de papel e uma caneta tinteiro à qual quero muito bem e, tenho certeza, ela a mim) e decidi que é melhor ficar quieto do que falar apenas por força do hábito (por mais que o hábito tenha surgido de uma necessidade profunda, como já tive oportunidade de observar anteriormente).
Agora que já disse porque parei de escrever, acho que devo explicar porque voltei. O fato é que eu estava um bocado entretido em lamentar minha existência vazia e solitária e agora fico a falar como quem viu passarinho verde. Ora, vi passarinho verde e deixemos o assunto por aí. Importa saber que me animei a vencer a preguiça e toda aquela energia negativa do pessimismo que parecia dar ainda mais força à gravidade que me mantinha cativo e confinado nos limites do sofá e, se não acho ainda que a vida vale tanto a pena, já não acho mais que vale a pena reclamar dela até a exaustão. É o que acontece quando se descobre formas mais agradáveis de ocupar o tempo.
Não é que fosse sem atrativos a boa e velha miséria mas não podia mais ficar incapacitado esperando a vida me dar um chute. Espero poder manter o sentido mais agudo de realidade que o pessimismo sempre me emprestou, por outro lado posso enxergar um pouco melhor o mundo quando não estou preocupado com a tristeza e as lamúrias que aterrorizam até mesmo os melhores de nós escritores diletantes. "E eu que era triste, descrente desse mundo..." Bem, o mundo pode esperar, agora vou dar o troco, a começar pelo próximo escrito. Desejem-me sorte.
P.S. Haverá dias em que minha disposição será mais romântica por força de alguma circunstância encantadora da vida (até mesmo o grande pessimista tem algum momento de alívio em sua caminhada), o que não deixa de ser assustador. Será que terei ainda em mim o necessário para voltar três anos no tempo? Não perca os próximos episódios...
Parei de escrever recentemente porque não podia mais suportar as minhas próprias palavras. Estava enjoado do som de minha voz, da disposição das minhas palavras na folha de papel (sim, amigos da geração da internet, eu sou um orgulhoso portador e usuário de folhas de papel e uma caneta tinteiro à qual quero muito bem e, tenho certeza, ela a mim) e decidi que é melhor ficar quieto do que falar apenas por força do hábito (por mais que o hábito tenha surgido de uma necessidade profunda, como já tive oportunidade de observar anteriormente).
Agora que já disse porque parei de escrever, acho que devo explicar porque voltei. O fato é que eu estava um bocado entretido em lamentar minha existência vazia e solitária e agora fico a falar como quem viu passarinho verde. Ora, vi passarinho verde e deixemos o assunto por aí. Importa saber que me animei a vencer a preguiça e toda aquela energia negativa do pessimismo que parecia dar ainda mais força à gravidade que me mantinha cativo e confinado nos limites do sofá e, se não acho ainda que a vida vale tanto a pena, já não acho mais que vale a pena reclamar dela até a exaustão. É o que acontece quando se descobre formas mais agradáveis de ocupar o tempo.
Não é que fosse sem atrativos a boa e velha miséria mas não podia mais ficar incapacitado esperando a vida me dar um chute. Espero poder manter o sentido mais agudo de realidade que o pessimismo sempre me emprestou, por outro lado posso enxergar um pouco melhor o mundo quando não estou preocupado com a tristeza e as lamúrias que aterrorizam até mesmo os melhores de nós escritores diletantes. "E eu que era triste, descrente desse mundo..." Bem, o mundo pode esperar, agora vou dar o troco, a começar pelo próximo escrito. Desejem-me sorte.
P.S. Haverá dias em que minha disposição será mais romântica por força de alguma circunstância encantadora da vida (até mesmo o grande pessimista tem algum momento de alívio em sua caminhada), o que não deixa de ser assustador. Será que terei ainda em mim o necessário para voltar três anos no tempo? Não perca os próximos episódios...
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
Feliz Aniversário
Engraçado como imaginei que fosse ficar tão afetado pela mudança do espaço físico no qual a minha vida se desenrola. Agora que mudou continuo muito mais preocupado com a passagem do tempo. É o sentido interno da passagem do tempo que me marca, deprime e limita. Mais um ano veio e, apesar das mudanças externas, só as que vem de dentro me afetam de fato. O meio no qual me insiro não parece me afetar tanto quanto a época na qual vivo. Minha circunstância é temporal. O resto, a despeito do que previa, importa pouco.
O texto abaixo foi escrito no dia 29 de novembro de 2004. Achei que seria melhor publicar antes que perdesse o papel. Lembro-me de tê-lo escrito à sombra de algumas daquelas árvores que ficam na frente do prédio da pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. A pesar de estar bastante tranqüilo no momento não acho que estava muito bem.
Olhando agora para o que escrevi vejo o quanto minhas reivindicações são vazias, vagas e diáfanas. Não tenho nem ao menos noção do que me incomoda, só gosto de ficar inventando um palavreado que me permita dar vazão a esse nada numa esfera relativamente segura. Foi bom ter feito aquele registro porquanto posso olhar para trás e perceber o quanto sou fraco, resmungão e destituído de conteúdo. Seria de se esperar que depois de ler tanto eu pudesse ter me aplicado, mesmo que incidentalmente, a pensar além da minha própria infelicidade oca. Não fui capaz. Não sou capaz. Sou incapaz. Ora, não sei de nada, nunca soube, gostava de pensar que seria melhor crescer, mas na, não é. Eu era um moleque feio, educado, relativamente inteligente para alguém da minha idade. Hoje sou mais um pretenso adulto à deriva no mundo porque não quis se expor à vida. Hoje posso rir de mim mesmo, isso tudo é um bocado patético.
Honestamente espero que minha auto-piedade não me sufoque um dia desses. Hoje acho que quero viver sim, apesar de tudo que possa sobrevir, da insatisfação e da solidão. Mas conto com a esperança de sobreviver, o que é mais do que contava ter algumas semanas atrás. O futuro dirá se tive razão (se bem que nesse caso não importará ter estado errado no final). Mas chega de bobagens, vamos ao ponto.
Feliz aniversário.
Agora é oficial. Acabo de completar vinte e um anos de descontentamento com a minha vida em quase todos os âmbitos. Fora minha vida familiar relativamente livre de conturbações estou na mesma; confuso, a vinte e um anos perturbado pela circunstância de minha vida. Vinte e um anos perdido, sem a menor idéia do que pensar sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre a política, sobre as mulheres, sobre os vícios e sobre as virtudes.
Talvez meu conhecimento possa ser limitado em relação à quase tudo que não seja ligado aos meus próprios vícios. Não falo de beber e fumar, esses são os fáceis. Falo de vícios como a necessidade inescapável de pensar sobre tudo até o ponto da demência, da intolerância em relação à gente burra, da minha polidez hipócrita que me impede de dizer a uma pessoa o quanto ela é burra, de minha solidão auto-imposta por um traço de caráter, da minha vontade de contrariar o que é consenso, da minha incapacidade de me relacionar com uma mulher sem que eu a despreze ou ela me despreze, da minha inconstância no envolvimento com qualquer projeto a longo prazo, da minha aversão pelo trabalho, da maneira empolada e protocolar de falar, que me faz tão chato e tão único.
Acho que com vinte e um anos de convivência já me conheço bem o suficiente. O resto não me é dado saber. Não me lembro de quando me tornei tão pessimista em relação a mim mesmo. Acho que foi na infância, algum tipo de reação ao otimismo com o qual encaravam meu futuro. Nunca quis tanta responsabilidade como cumprir tamanhas expectativas, aliás, sempre quis ser um pouco mais irresponsável. E menos consciente de minhas limitações.
Agora, com vinte e um anos, essa carga de responsabilidade me conclama a superar os meus defeitos, justamente esses defeitos que constituem boa parte do que gosto em mim mesmo (vá lá que seja desse jeito doentio de desgostar gostando). Imagino o que seria de mim sem os meus vícios. Seria terrivelmente insuportável. Quais são meus objetivos imediatos, dado que, no fundo, aspiro a uma das vidas imperfeitas que me são possíveis. Qual delas farei chamar minha?
Outra coisa interessante é que diante desse quadro me vejo atraído por mulheres que compartilham dessas imperfeições, que são imperfeitas do mesmo modo que eu, quiçá dissolutas como eu... E qualquer uma que se importe comigo já não está imperfeita o bastante, não terá vícios suficientes para que juntos os façamos conviver, os meus e os dela. Sinto falta do tempo em que podia aspirar uma mulher ideal, um emprego ideal, uma vida ideal. Havia um propósito específico na minha existência de então. Agora tudo não passa de um impulso cego. Maldita a hora em que eu, ao invés de sonhar, escolhi viver. Sou um vivente imperfeito, não tenho coragem de explorar todas as conseqüências possíveis de minhas escolhas e atos e fico aqui escrevendo sobre a vida. Entre a luz e as sombras preferi a fresca penumbra. Viver assim requer muita habilidade, e requer toda a minha energia aceitar todos os paradoxos que minhas escolhas implicam.
O pior de tudo é que a vinte e um anos fico executando esse exercício inútil de choradeira, escrevo de minha própria estupidez, à procura de alguma redenção que nunca chegue.
O texto abaixo foi escrito no dia 29 de novembro de 2004. Achei que seria melhor publicar antes que perdesse o papel. Lembro-me de tê-lo escrito à sombra de algumas daquelas árvores que ficam na frente do prédio da pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. A pesar de estar bastante tranqüilo no momento não acho que estava muito bem.
Olhando agora para o que escrevi vejo o quanto minhas reivindicações são vazias, vagas e diáfanas. Não tenho nem ao menos noção do que me incomoda, só gosto de ficar inventando um palavreado que me permita dar vazão a esse nada numa esfera relativamente segura. Foi bom ter feito aquele registro porquanto posso olhar para trás e perceber o quanto sou fraco, resmungão e destituído de conteúdo. Seria de se esperar que depois de ler tanto eu pudesse ter me aplicado, mesmo que incidentalmente, a pensar além da minha própria infelicidade oca. Não fui capaz. Não sou capaz. Sou incapaz. Ora, não sei de nada, nunca soube, gostava de pensar que seria melhor crescer, mas na, não é. Eu era um moleque feio, educado, relativamente inteligente para alguém da minha idade. Hoje sou mais um pretenso adulto à deriva no mundo porque não quis se expor à vida. Hoje posso rir de mim mesmo, isso tudo é um bocado patético.
Honestamente espero que minha auto-piedade não me sufoque um dia desses. Hoje acho que quero viver sim, apesar de tudo que possa sobrevir, da insatisfação e da solidão. Mas conto com a esperança de sobreviver, o que é mais do que contava ter algumas semanas atrás. O futuro dirá se tive razão (se bem que nesse caso não importará ter estado errado no final). Mas chega de bobagens, vamos ao ponto.
Feliz aniversário.
Agora é oficial. Acabo de completar vinte e um anos de descontentamento com a minha vida em quase todos os âmbitos. Fora minha vida familiar relativamente livre de conturbações estou na mesma; confuso, a vinte e um anos perturbado pela circunstância de minha vida. Vinte e um anos perdido, sem a menor idéia do que pensar sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre a política, sobre as mulheres, sobre os vícios e sobre as virtudes.
Talvez meu conhecimento possa ser limitado em relação à quase tudo que não seja ligado aos meus próprios vícios. Não falo de beber e fumar, esses são os fáceis. Falo de vícios como a necessidade inescapável de pensar sobre tudo até o ponto da demência, da intolerância em relação à gente burra, da minha polidez hipócrita que me impede de dizer a uma pessoa o quanto ela é burra, de minha solidão auto-imposta por um traço de caráter, da minha vontade de contrariar o que é consenso, da minha incapacidade de me relacionar com uma mulher sem que eu a despreze ou ela me despreze, da minha inconstância no envolvimento com qualquer projeto a longo prazo, da minha aversão pelo trabalho, da maneira empolada e protocolar de falar, que me faz tão chato e tão único.
Acho que com vinte e um anos de convivência já me conheço bem o suficiente. O resto não me é dado saber. Não me lembro de quando me tornei tão pessimista em relação a mim mesmo. Acho que foi na infância, algum tipo de reação ao otimismo com o qual encaravam meu futuro. Nunca quis tanta responsabilidade como cumprir tamanhas expectativas, aliás, sempre quis ser um pouco mais irresponsável. E menos consciente de minhas limitações.
Agora, com vinte e um anos, essa carga de responsabilidade me conclama a superar os meus defeitos, justamente esses defeitos que constituem boa parte do que gosto em mim mesmo (vá lá que seja desse jeito doentio de desgostar gostando). Imagino o que seria de mim sem os meus vícios. Seria terrivelmente insuportável. Quais são meus objetivos imediatos, dado que, no fundo, aspiro a uma das vidas imperfeitas que me são possíveis. Qual delas farei chamar minha?
Outra coisa interessante é que diante desse quadro me vejo atraído por mulheres que compartilham dessas imperfeições, que são imperfeitas do mesmo modo que eu, quiçá dissolutas como eu... E qualquer uma que se importe comigo já não está imperfeita o bastante, não terá vícios suficientes para que juntos os façamos conviver, os meus e os dela. Sinto falta do tempo em que podia aspirar uma mulher ideal, um emprego ideal, uma vida ideal. Havia um propósito específico na minha existência de então. Agora tudo não passa de um impulso cego. Maldita a hora em que eu, ao invés de sonhar, escolhi viver. Sou um vivente imperfeito, não tenho coragem de explorar todas as conseqüências possíveis de minhas escolhas e atos e fico aqui escrevendo sobre a vida. Entre a luz e as sombras preferi a fresca penumbra. Viver assim requer muita habilidade, e requer toda a minha energia aceitar todos os paradoxos que minhas escolhas implicam.
O pior de tudo é que a vinte e um anos fico executando esse exercício inútil de choradeira, escrevo de minha própria estupidez, à procura de alguma redenção que nunca chegue.
terça-feira, fevereiro 15, 2005
Amores Perdidos
O amor é um jogo repleto de possibilidades, especialmente possibilidades perdidas. Olhar para trás e relembrar as frágeis construções do “que poderia ter sido” é uma disciplina profundamente reveladora do caráter. Aqueles em paz consigo mesmos são capazes de enxergar nas possibilidades perdidas um gentil sussurro de algo que não teria razão de ser, como um raio tímido de sol numa madrugada fria. Aqueles presos ao presente são incapazes de olhar para trás e compreender sequer que fizeram escolhas, deixaram possibilidades para trás, as quais moldaram suas vidas talvez mais do que as escolhas que fizeram. Aqueles presos ao passado ficam acordados à noite, imaginando mil decisões que os teriam feito felizes. Aqueles imersos em solidão contemplam o passado e o futuro indiferentemente, com uma resignação sombria diante de ambos.
Talvez a única coisa mais cortante do que o amor que sentimos seja o amor que perdemos. Quando o amor acontece, nosso senso de proporção é satisfeito: o homem é para a mulher e ela para ele. Quando se perde o amor, aquele pesar conformado que nos aflige, o suspiro profundo, a tristeza que nos abate, a dor que chora conosco, deixam tudo mais bonito. A beleza desse instante único em que percebemos a oportunidade perdida, o átimo de tempo em que em que o amor nos foge das mãos, é o que há de mais sublime e belo no tempo do coração. No fim, o que nos resta é o consolo de que onde morre o amor, nasce a beleza. Os corações sacrificados, os amores perdidos, as lágrimas contadas: a eles brindamos e bebemos ao chegar a noite.
Talvez a única coisa mais cortante do que o amor que sentimos seja o amor que perdemos. Quando o amor acontece, nosso senso de proporção é satisfeito: o homem é para a mulher e ela para ele. Quando se perde o amor, aquele pesar conformado que nos aflige, o suspiro profundo, a tristeza que nos abate, a dor que chora conosco, deixam tudo mais bonito. A beleza desse instante único em que percebemos a oportunidade perdida, o átimo de tempo em que em que o amor nos foge das mãos, é o que há de mais sublime e belo no tempo do coração. No fim, o que nos resta é o consolo de que onde morre o amor, nasce a beleza. Os corações sacrificados, os amores perdidos, as lágrimas contadas: a eles brindamos e bebemos ao chegar a noite.
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
The angel of death watches over me.
She has a face, and a name,
and a voice.
The angel of death is a dancer,
and a graceful one.
So I follow her steps
as she calls.
I hear my name
and I feel no more,
and I see no more,
and I am no more.
I sacrifice my last, desperate breath
to call your name,
but you are away, in other arms
I love no more.
She has a face, and a name,
and a voice.
The angel of death is a dancer,
and a graceful one.
So I follow her steps
as she calls.
I hear my name
and I feel no more,
and I see no more,
and I am no more.
I sacrifice my last, desperate breath
to call your name,
but you are away, in other arms
I love no more.
Meu peito era tristeza...
Meu peito era tristeza vaga,
dor indefinível,
solidão vadia.
Por te conhecer, meu bem
meu mal ganhou um nome,
um par de olhos claros,
um sorriso cálido,
um corpo de mulher.
Você queima e não mata,
fere mas não sangro;
me dá de beber, no corpo,
o fel que todo dia espero.
Por você me derramo,
em libação calada
de amor indigno.
dor indefinível,
solidão vadia.
Por te conhecer, meu bem
meu mal ganhou um nome,
um par de olhos claros,
um sorriso cálido,
um corpo de mulher.
Você queima e não mata,
fere mas não sangro;
me dá de beber, no corpo,
o fel que todo dia espero.
Por você me derramo,
em libação calada
de amor indigno.
sexta-feira, janeiro 21, 2005
Amigos, non poss'eu negar
Depois desta bobagem toda me senti mal e resolvi recorrer a palavras alheias que caem como uma luva para meus momentos mais românticos. Eu posso me servir do testemunho de diversas pessoas próximas que dirão o quanto sou passível de uma sujeição semelhante a este eu lírico cujas palavras faço minhas, e pelas mesmas razões em boa parte das vezes. Vai entender...
Amigos, non poss'eu negar
Amigos, non poss' eu negar
a gran coita que d'amor ei,
ca me vejo sandeu andar,
e con sandeçe o direi:
os olhos verdes que eu vi
me fazen or' andar assi.
Pero quemquer s'entenderá
aquestes olhos quaes son,
e dest' alguen se queixaráhe
mais eu ja quer moira, quer no
os olhos verdes que eu vi
me fazen or' andar assi.
Amigos, non poss'eu negar
Amigos, non poss' eu negar
a gran coita que d'amor ei,
ca me vejo sandeu andar,
e con sandeçe o direi:
os olhos verdes que eu vi
me fazen or' andar assi.
Pero quemquer s'entenderá
aquestes olhos quaes son,
e dest' alguen se queixaráhe
mais eu ja quer moira, quer no
os olhos verdes que eu vi
me fazen or' andar assi.
Megalomania
Quando eu crescer eu quero ser um gênio incompreendido. Imagine só poder alçar minha voz contra a sabedoria mundana e revelar a todos os imbecis aquilo que todos num futuro póstumo saberão ser, obviamente a verdade absoluta.
Quero provar que todas as teorias que contradigam os meus sábios aforismos são falsidades sacrílegas e disparatadas. Minhas palavras serão buscadas e há de se inventar ainda um método científico mas impreciso para a hermenêutica de minhas geniais idéias.
Milhares de crianças ao redor do mundo irão aprender a repetir minhas mais famosas pérolas de sabedoria, afinal serão minhas idéias a moldar as mentes do próximo século como jamais antes idéias foram capazes de influenciar jovens mentes.
Evidente que poucos me darão crédito. Pelo contrário, me chamarão de megalômano, de louco, de idiota, mas eu terei minha vingança, pois não se pode querer cobrir a luz da verdade com a peneira da inveja e da baixa mentira.
Aqueles que pensarem que se livrarão facilmente da abrangência de minha genialidade serão os primeiros a se dobrar ante a minha suprema capacidade intelectual e o poder transformador de minhas idéias. Estes se arrependerão de ter alçado suas rasteiras vozes contra mim um dia e vão perceber que foram libertados das amarras do obscurantismo pelas minhas palavras geniais.
Assim concluo esse prognóstico otimista do futuro próximo conclamando a todos que o lerem para que se curvem desde já à minha evidente superioridade em relação ao bolo amorfo da humanidade.
Sou humilde a ponto de reconhecer que alguns poderão até vir a compreender hoje o que digo, mas só os verdadeiros escolhidos serão capazes de tamanho feito.
P.S. Estou bêbado, então desculpem se a piada foi sem graça. Achei um exercício fascinante de cretinice. Obrigado e boa noite.
Quero provar que todas as teorias que contradigam os meus sábios aforismos são falsidades sacrílegas e disparatadas. Minhas palavras serão buscadas e há de se inventar ainda um método científico mas impreciso para a hermenêutica de minhas geniais idéias.
Milhares de crianças ao redor do mundo irão aprender a repetir minhas mais famosas pérolas de sabedoria, afinal serão minhas idéias a moldar as mentes do próximo século como jamais antes idéias foram capazes de influenciar jovens mentes.
Evidente que poucos me darão crédito. Pelo contrário, me chamarão de megalômano, de louco, de idiota, mas eu terei minha vingança, pois não se pode querer cobrir a luz da verdade com a peneira da inveja e da baixa mentira.
Aqueles que pensarem que se livrarão facilmente da abrangência de minha genialidade serão os primeiros a se dobrar ante a minha suprema capacidade intelectual e o poder transformador de minhas idéias. Estes se arrependerão de ter alçado suas rasteiras vozes contra mim um dia e vão perceber que foram libertados das amarras do obscurantismo pelas minhas palavras geniais.
Assim concluo esse prognóstico otimista do futuro próximo conclamando a todos que o lerem para que se curvem desde já à minha evidente superioridade em relação ao bolo amorfo da humanidade.
Sou humilde a ponto de reconhecer que alguns poderão até vir a compreender hoje o que digo, mas só os verdadeiros escolhidos serão capazes de tamanho feito.
P.S. Estou bêbado, então desculpem se a piada foi sem graça. Achei um exercício fascinante de cretinice. Obrigado e boa noite.
terça-feira, janeiro 11, 2005
O primeiro encontro
O primeiro encontro é aquele que tudo define. No primeiro encontro reside todo o futuro possível de um relacionamento que poderia ter um grande impacto no mundo, uma vez que você e a mulher a ser encontrada podem se dar bem, marcar mais encontros, iniciar um relacionamento, fazer apresentações aos pais, morar juntos, casar, ter um filho que crescerá para se tornar um grande gênio da medicina e descobrir a cura para o câncer. Ou você pode simplesmente meter os pés pelas mãos e teremos que conviver com este ou qualquer outro flagelo da humanidade por outros tantos anos. Tudo é uma questão de possibilidades, e estas são infinitas, mas na pior das hipóteses o futuro depende desse momento e você tem uma grande chance de acabar com ele.
Ao contrário do que normalmente acontece em algumas culturas, aqui nesta nação tupiniquim a partir da qual vos falo, o primeiro encontro é um momento completamente independente do que popularmente se convencionou chamar de a primeira “ficada”. Ficar com alguém, ou melhor dizendo, beijar e acariciar (mais ou menos livremente dependendo da pessoa e da situação) alguém sem compromisso algum, por mera obra das circunstâncias, é algo relativamente fácil. Você conhece a história: festa na quinta feira à noite, você vai de carona e por isso acha mais educado tomar um banho antes, coloca uma roupa que melhor esconda seus defeitos antes que todos estejam muito cegos ou muito bêbados para se importar, ouve a buzina na porta e vai para mais uma noite de álcool e rejeição por parte de alguém que, em condições normais, jamais mereceria sequer um olhar seu (e que no decorrer da noite ficou substancialmente mais bonita).De repente, sem ter se dado conta, você se encontra ao lado de uma total desconhecida que parece estar, segundo opinião dos expertos mais conceituados, conectada à sua boca de maneira indisfarçável, enquanto você, que também é filho de Deus, explora o quanto pode da anatomia da estranha em questão com a sua mão livre (existe um mão que invariavelmente fica presa nessas ocasiões). Ora, a primeira ficada tem grande probabilidade de ser, diante das circunstâncias, aquilo que chamo de, para fins de trazer a idéia à tona com toda a clareza que sua realidade merece, uma cagada monumental.
Muito bem, dispostas as peças desse modo, logo fica evidente que existe uma grande chance de que, dado que você tenha conseguido chegar incólume em sua casa apesar da bebedeira, tenha pegado o telefone da mulher com quem ficou e se recorde vagamente de quem ela era, acabe sofrendo uma grande decepção (à qual alguns intitulam também ressaca moral). Logo, a antecipação se acumula, como no princípio do terceiro movimento do primeiro Concerto para piano de Tchaikovsky (em mi bemol, se não me falha a memória), sem que no entanto se saiba se o finale será tão espetacular como no concerto. Pode ser que ao invés de aplausos, ao fim do encontro, venham as vaias.
Duas formas básicas de decepção podem ocorrer. Você pode ficar despontado com ela ou ela ficar despontada com você. Ou ambos podem ficar desapontado, não há terceiro excluído. Diante de tudo isso que pode dar errado, diante do horror de se ver num encontro com uma mulher esteticamente prejudicada, você pega o telefone e marca a data e o local. A atitude de desafiar o destino quando todas as probabilidades estão contra você lhe dá a estatura de um herói grego de tragédia. O ar grave que está por trás da conversa aparentemente leve e despreocupada denota a tensão que permanece pairando sobre as cabeças envolvidas durante toda a duração do encontro. Esse é um dado com o qual se deve contar no cálculo do risco envolvido na difícil atividade de procurar relacionamentos de que tipo forem, a tensão está sempre lá.
Chegado o momento de chegar ao encontro em si, cercado, provavelmente por todas as circunstâncias já descritas, fica difícil saber como cumprimentar. Selinho? Beijinho no rosto? Aperto de mão? Seria bobagem imaginar que os detalhes são irrelevantes. Numa situação com tanta pressão acumulada, qualquer rachadura, qualquer vazamento, qualquer falha de engenharia no encontro pode ser fatal. E quem sabe se detalhes para os quais você jamais atentaria não podem ocasionar as mais variadas más impressões: se seus sapatos combinam com as meias, se você passou em cima das tulipas do jardim ao estacionar o carro, se você tem um chaveirinho de coelhinho, brinde de aniversário da revista Playboy, pendendo para fora do bolso e outras coisas do gênero. As mulheres são expertas em reparar nas bobagens mais inacreditavelmente desprovidas de importância (para você).
Esse pequeno demonstrativo não é nada comparado com o que vem depois. Analise suas conversas mais recentes com os amigos, com as mulheres, com as pessoas à sua volta. Você realmente confia na própria boca? Quer dizer, quantas gafes você já deu, quantos palavrões inomináveis, quantas piadas machistas, comentários ofensivos, infrações contra o politicamente correto, enfim, quanta porcaria já brotou, num glorioso ato involuntário de diarréia verbal, da sua boca? Por que é que isso não vai acontecer justamente no momento em que você precisa estar mais apresentável e mostrar seu melhor lado, a saber, no primeiro encontro?
O que me proponho a fazer aqui não é desestimular ninguém, senão advertir que, como em tudo na vida, muita coisa pode dar errado no primeiro encontro. Isso é muito útil para quem se encontra em vias de empreender tamanho feito, uma vez que acaba em grande parte com a expectativa de que algo possa efetivamente dar certo, de modo que se pode desfrutar o encontro sem risco de ser pego desprevenido pelo fracasso. Se isso não é um serviço de utilidade pública eu não sei o que é. Então aproveite ao máximo seu encontro, afinal as chances são de que existam muitos outros primeiros ainda por vir em sua carreira de Casanova às avessas.
Ao contrário do que normalmente acontece em algumas culturas, aqui nesta nação tupiniquim a partir da qual vos falo, o primeiro encontro é um momento completamente independente do que popularmente se convencionou chamar de a primeira “ficada”. Ficar com alguém, ou melhor dizendo, beijar e acariciar (mais ou menos livremente dependendo da pessoa e da situação) alguém sem compromisso algum, por mera obra das circunstâncias, é algo relativamente fácil. Você conhece a história: festa na quinta feira à noite, você vai de carona e por isso acha mais educado tomar um banho antes, coloca uma roupa que melhor esconda seus defeitos antes que todos estejam muito cegos ou muito bêbados para se importar, ouve a buzina na porta e vai para mais uma noite de álcool e rejeição por parte de alguém que, em condições normais, jamais mereceria sequer um olhar seu (e que no decorrer da noite ficou substancialmente mais bonita).De repente, sem ter se dado conta, você se encontra ao lado de uma total desconhecida que parece estar, segundo opinião dos expertos mais conceituados, conectada à sua boca de maneira indisfarçável, enquanto você, que também é filho de Deus, explora o quanto pode da anatomia da estranha em questão com a sua mão livre (existe um mão que invariavelmente fica presa nessas ocasiões). Ora, a primeira ficada tem grande probabilidade de ser, diante das circunstâncias, aquilo que chamo de, para fins de trazer a idéia à tona com toda a clareza que sua realidade merece, uma cagada monumental.
Muito bem, dispostas as peças desse modo, logo fica evidente que existe uma grande chance de que, dado que você tenha conseguido chegar incólume em sua casa apesar da bebedeira, tenha pegado o telefone da mulher com quem ficou e se recorde vagamente de quem ela era, acabe sofrendo uma grande decepção (à qual alguns intitulam também ressaca moral). Logo, a antecipação se acumula, como no princípio do terceiro movimento do primeiro Concerto para piano de Tchaikovsky (em mi bemol, se não me falha a memória), sem que no entanto se saiba se o finale será tão espetacular como no concerto. Pode ser que ao invés de aplausos, ao fim do encontro, venham as vaias.
Duas formas básicas de decepção podem ocorrer. Você pode ficar despontado com ela ou ela ficar despontada com você. Ou ambos podem ficar desapontado, não há terceiro excluído. Diante de tudo isso que pode dar errado, diante do horror de se ver num encontro com uma mulher esteticamente prejudicada, você pega o telefone e marca a data e o local. A atitude de desafiar o destino quando todas as probabilidades estão contra você lhe dá a estatura de um herói grego de tragédia. O ar grave que está por trás da conversa aparentemente leve e despreocupada denota a tensão que permanece pairando sobre as cabeças envolvidas durante toda a duração do encontro. Esse é um dado com o qual se deve contar no cálculo do risco envolvido na difícil atividade de procurar relacionamentos de que tipo forem, a tensão está sempre lá.
Chegado o momento de chegar ao encontro em si, cercado, provavelmente por todas as circunstâncias já descritas, fica difícil saber como cumprimentar. Selinho? Beijinho no rosto? Aperto de mão? Seria bobagem imaginar que os detalhes são irrelevantes. Numa situação com tanta pressão acumulada, qualquer rachadura, qualquer vazamento, qualquer falha de engenharia no encontro pode ser fatal. E quem sabe se detalhes para os quais você jamais atentaria não podem ocasionar as mais variadas más impressões: se seus sapatos combinam com as meias, se você passou em cima das tulipas do jardim ao estacionar o carro, se você tem um chaveirinho de coelhinho, brinde de aniversário da revista Playboy, pendendo para fora do bolso e outras coisas do gênero. As mulheres são expertas em reparar nas bobagens mais inacreditavelmente desprovidas de importância (para você).
Esse pequeno demonstrativo não é nada comparado com o que vem depois. Analise suas conversas mais recentes com os amigos, com as mulheres, com as pessoas à sua volta. Você realmente confia na própria boca? Quer dizer, quantas gafes você já deu, quantos palavrões inomináveis, quantas piadas machistas, comentários ofensivos, infrações contra o politicamente correto, enfim, quanta porcaria já brotou, num glorioso ato involuntário de diarréia verbal, da sua boca? Por que é que isso não vai acontecer justamente no momento em que você precisa estar mais apresentável e mostrar seu melhor lado, a saber, no primeiro encontro?
O que me proponho a fazer aqui não é desestimular ninguém, senão advertir que, como em tudo na vida, muita coisa pode dar errado no primeiro encontro. Isso é muito útil para quem se encontra em vias de empreender tamanho feito, uma vez que acaba em grande parte com a expectativa de que algo possa efetivamente dar certo, de modo que se pode desfrutar o encontro sem risco de ser pego desprevenido pelo fracasso. Se isso não é um serviço de utilidade pública eu não sei o que é. Então aproveite ao máximo seu encontro, afinal as chances são de que existam muitos outros primeiros ainda por vir em sua carreira de Casanova às avessas.
terça-feira, janeiro 04, 2005
Verão 2004/2005...
Estive na praia por uma semana com uma gente muito agradável e divertida. Voltei bronzeado e um bocado contente. Talvez não tenha sido tudo rosas, mas esta é a impressão geral. Ao invés de ficar tentando rememorar o que aconteceu e escrever um breve diário de viagem, achei por bem publicar algumas notas que tomei em diversos momentos daquela semana, conforme me dava vontade e tinha a pena à mão. Essas poucas notas são um testemunho muito mais honesto e preciso de minhas impressões do que qualquer narrativa a posteriori jamais poderia ser.
Música das Ondas
Ainda que não seja a primeira vez que faço notas da praia, é a primeira vez que tenho a audácia, tendo em vista a probabilidade de receber críticas diversas, de escrever na praia. O barulho das ondas embala o ritmo da pena, a escrita sai vagarosa e rítmica.
Nada mais natural. As ondas também respeitam esse ritmo determinado por algum mistério que não ousaria sondar, elas o imprimem, por sua vez, ao caminhar sinuoso e macio das mulheres que passam. Tudo que vejo na praia parece compor um sistema harmônico cujo propósito principal é deleitar os meus sentidos.
Seria lugar comum dizer que o litoral brasileiro transpira sensualidade. Evitaria essa repetição se pudesse, mas não consigo evitar o comentário diante da topografia feminina que se desvela diante dos meus olhos.
Sabe-se lá por que motivo me ponho a prosear dessa maneira. Não arrisco palpite mais ousado do que o de que fui inspirado por toda a romântica atmosfera que me cerca, aliada à alegria do sol que achou enfim por bem fazer uma visita. Em momentos assim poderia facilmente me deixar encantar pela música do vento e me perder no mar.
Cambury, 30.12.04
É dolorosa a contradição de desprezar aquilo que desejamos. É uma necessidade que temos para aplacar a condição grave e avassaladora de ser que deseja, e que o faz desmesuradamente.
Por pior que possa ser, tudo isso desaparece ante à sensação de vazio, solidão e egoísmo de ver o desejo realizado. É por isso que só os santos são felizes.
Cambury, 30.12.04
Soneto sombrio
Os vis fantasmas das memórias mortas
nada fazem senão triste figura
por ter rompido os laços de ternura
com os vivos, fecharam-lhes as portas
E as trilhas escuras, sendas tortas
desprovidas de amor ou de candura
são percorridas pela luz escura
destas memórias sôfregas e rotas
Sua existência efêmera e negada
pelo implacável mal do esquecimento
a sua morte nunca anunciada
sem aflição, sem dor, sem sofrimento
são a extensão do quanto lhes invejo
melhores que esta dor que sinto e vejo.
Boiçucanga, 29.12.04
Observações impertinentes: Carol e Eduardo, obrigado pela leitura dos originais, vocês foram muito gentis. Agradecimento ainda a Carol e Cecília por me inspirarem a escrever o primeiro texto, meramente por estarem lá. O caput tem a mesma data do post.
Música das Ondas
Ainda que não seja a primeira vez que faço notas da praia, é a primeira vez que tenho a audácia, tendo em vista a probabilidade de receber críticas diversas, de escrever na praia. O barulho das ondas embala o ritmo da pena, a escrita sai vagarosa e rítmica.
Nada mais natural. As ondas também respeitam esse ritmo determinado por algum mistério que não ousaria sondar, elas o imprimem, por sua vez, ao caminhar sinuoso e macio das mulheres que passam. Tudo que vejo na praia parece compor um sistema harmônico cujo propósito principal é deleitar os meus sentidos.
Seria lugar comum dizer que o litoral brasileiro transpira sensualidade. Evitaria essa repetição se pudesse, mas não consigo evitar o comentário diante da topografia feminina que se desvela diante dos meus olhos.
Sabe-se lá por que motivo me ponho a prosear dessa maneira. Não arrisco palpite mais ousado do que o de que fui inspirado por toda a romântica atmosfera que me cerca, aliada à alegria do sol que achou enfim por bem fazer uma visita. Em momentos assim poderia facilmente me deixar encantar pela música do vento e me perder no mar.
Cambury, 30.12.04
É dolorosa a contradição de desprezar aquilo que desejamos. É uma necessidade que temos para aplacar a condição grave e avassaladora de ser que deseja, e que o faz desmesuradamente.
Por pior que possa ser, tudo isso desaparece ante à sensação de vazio, solidão e egoísmo de ver o desejo realizado. É por isso que só os santos são felizes.
Cambury, 30.12.04
Soneto sombrio
Os vis fantasmas das memórias mortas
nada fazem senão triste figura
por ter rompido os laços de ternura
com os vivos, fecharam-lhes as portas
E as trilhas escuras, sendas tortas
desprovidas de amor ou de candura
são percorridas pela luz escura
destas memórias sôfregas e rotas
Sua existência efêmera e negada
pelo implacável mal do esquecimento
a sua morte nunca anunciada
sem aflição, sem dor, sem sofrimento
são a extensão do quanto lhes invejo
melhores que esta dor que sinto e vejo.
Boiçucanga, 29.12.04
Observações impertinentes: Carol e Eduardo, obrigado pela leitura dos originais, vocês foram muito gentis. Agradecimento ainda a Carol e Cecília por me inspirarem a escrever o primeiro texto, meramente por estarem lá. O caput tem a mesma data do post.
domingo, dezembro 26, 2004
Qualquer sentimento é válido?
Se não podemos deixar de sentir o que sentimos isso quer dizer que necessariamente temos ali algo legítimo?
Não tenho, a pesar da tentação que é dar um palpite de leigo sobre algo que não conheço, a pretensão de tratar de qualquer aspecto psicológico, da coisa toda das emoções. Minha formação mal me habilita a ser estagiário de Direito, quanto mais psicólogo. O problema é de natreza bem mais simples.
Um sentimento ou um estado de ânimo deve se reportar a uma causa, creio eu. Se podemos dizer que o sentimento é inevitável, que dizer de suas causas? Quando somos compelidos a sentir, será que podemos evitar as situações que nos levem a tal disposição?
Na maioria das vezes somos levados a evitar o desconforto de modo quase que instintivo, então porque devemos, em relação a esse particular aspecto da vida, o sentimental, nos entregarmos à tirania de algo que, nascido dentro de nós, nos foge ao controle? Deveríamos ser mais cuidadosos? Seria algo autêntico, por outro lado, considerar um sentimento banhado em cuidado e precaução?
Não espero conseguir resposta para esse dilema. Desde que o mundo é mundo pessoas muito melhores do que eu tentaram alcançar respostas para esse problema sem sucesso. O mais interessante é ter chegado a fazer a pergunta, sem o que seria mais uma vítima dos desígnios da minha vontade cega, surda e burra.
Seguindo em frente após o aparte (pessimista como de costume), submeter o que sinto ao que penso é uma postura difícil, primeiro porque exige que eu pense, depois porque exige que sinta menos. Isso se torna especialmente difícil quando a mente que tenta estas operações é tão fértil a ponto de imaginar situações traumáticas e reagir internamente como se estivesse a vivê-las de forma intensa. Pensar e sentir não são opostos irreconciliáveis, simplesmente são aspectos do mesmo homem, mas suas exigências quanto à capacidade humana são tão grnades que é certamente improvável que deixem de obscurecer-se mutuamente quando tentamos executar ambos os atos simultânea e intensamente.
Quando penso, quando realizo o ato de conhecer ou o ato de refletir, estou colocando em segundo plano o ato de sentir. Se posso por esse modo controlar desse modo o que sinto e até quando é algo que não saberia responder. Todavia, o interessante seria perguntar por que se dar ao trabalho.
Evidente que somente um sentimento está de fato a ser tratado aqui, o amor. Se não disse antes foi para quen não fosse de pronto sofrer as conseqüências de se falar sobre o amor, todas aquelas pré concepções. Creio que a essa altura seja seguro dar nome aos bois. Amor entendido aqui como amor romântico em suas formas e falsificações como a paixão e o ciúme. Essas são partes importantes do quebra cabeça que é o relacionamento entre um homem e uma mulher (não sou politicamente correto e nem cara de pau suficiente para fingir que entendo ou considero qualquer outro relacionamento amoroso fora deste esquema), afinal são grande parte do que ocupa o tempo dos casais.
Eu acho que lia T.H. White quando me deparei com alguma coisa que Merlin falava para o jovem Wart a respeito do ato de conhecer. Algo como a importância de conhecer por ser algo que você sempre pode fazer, que jamais lhe será tirado e que lhe ajudará a passar pelos problemas, pela dor, de modo a evitar o sofrimento.
Eu costumava achar que era preciso sofrer. Hoje não posso dizer isso. O sofrimento ensina ao homem o quanto é importante a alegria, porém mais grandioso é desfrutá-la sem jamais tê-la perdido. A angústia é insistir no vício de sofrer de livre e espontânea vontade. Amar pode ser sofrer, mas hoje gostaria de ampliar o rol de possibilidades que o amor traz em si para acrescentar que também existe um prazer e uma plenitude. É sentir-se completo, ainda que não dure.
Antes que perguntem, não estou amando. Tenho medo e não pretendo tomar uma atitude brava ainda, mas é bom saber que a opção existe. Quando houver dor, nada vai restar a fazer senão chorar, quando houver alegria devo rir. Quando me sentir sombrio serei temível, quando estiver triste serei calado. Para tudo haverá tempo, espero poder me livrar do fatalismo de pensar que estou fadado a morrer só e em agonia.
É válido sentir amor? Sim, sempre que for sincero. Acho que no fim das contas, pensar sobre o amor é mais fácil. Mas aí amar fica mais difícil.
Se não podemos deixar de sentir o que sentimos isso quer dizer que necessariamente temos ali algo legítimo?
Não tenho, a pesar da tentação que é dar um palpite de leigo sobre algo que não conheço, a pretensão de tratar de qualquer aspecto psicológico, da coisa toda das emoções. Minha formação mal me habilita a ser estagiário de Direito, quanto mais psicólogo. O problema é de natreza bem mais simples.
Um sentimento ou um estado de ânimo deve se reportar a uma causa, creio eu. Se podemos dizer que o sentimento é inevitável, que dizer de suas causas? Quando somos compelidos a sentir, será que podemos evitar as situações que nos levem a tal disposição?
Na maioria das vezes somos levados a evitar o desconforto de modo quase que instintivo, então porque devemos, em relação a esse particular aspecto da vida, o sentimental, nos entregarmos à tirania de algo que, nascido dentro de nós, nos foge ao controle? Deveríamos ser mais cuidadosos? Seria algo autêntico, por outro lado, considerar um sentimento banhado em cuidado e precaução?
Não espero conseguir resposta para esse dilema. Desde que o mundo é mundo pessoas muito melhores do que eu tentaram alcançar respostas para esse problema sem sucesso. O mais interessante é ter chegado a fazer a pergunta, sem o que seria mais uma vítima dos desígnios da minha vontade cega, surda e burra.
Seguindo em frente após o aparte (pessimista como de costume), submeter o que sinto ao que penso é uma postura difícil, primeiro porque exige que eu pense, depois porque exige que sinta menos. Isso se torna especialmente difícil quando a mente que tenta estas operações é tão fértil a ponto de imaginar situações traumáticas e reagir internamente como se estivesse a vivê-las de forma intensa. Pensar e sentir não são opostos irreconciliáveis, simplesmente são aspectos do mesmo homem, mas suas exigências quanto à capacidade humana são tão grnades que é certamente improvável que deixem de obscurecer-se mutuamente quando tentamos executar ambos os atos simultânea e intensamente.
Quando penso, quando realizo o ato de conhecer ou o ato de refletir, estou colocando em segundo plano o ato de sentir. Se posso por esse modo controlar desse modo o que sinto e até quando é algo que não saberia responder. Todavia, o interessante seria perguntar por que se dar ao trabalho.
Evidente que somente um sentimento está de fato a ser tratado aqui, o amor. Se não disse antes foi para quen não fosse de pronto sofrer as conseqüências de se falar sobre o amor, todas aquelas pré concepções. Creio que a essa altura seja seguro dar nome aos bois. Amor entendido aqui como amor romântico em suas formas e falsificações como a paixão e o ciúme. Essas são partes importantes do quebra cabeça que é o relacionamento entre um homem e uma mulher (não sou politicamente correto e nem cara de pau suficiente para fingir que entendo ou considero qualquer outro relacionamento amoroso fora deste esquema), afinal são grande parte do que ocupa o tempo dos casais.
Eu acho que lia T.H. White quando me deparei com alguma coisa que Merlin falava para o jovem Wart a respeito do ato de conhecer. Algo como a importância de conhecer por ser algo que você sempre pode fazer, que jamais lhe será tirado e que lhe ajudará a passar pelos problemas, pela dor, de modo a evitar o sofrimento.
Eu costumava achar que era preciso sofrer. Hoje não posso dizer isso. O sofrimento ensina ao homem o quanto é importante a alegria, porém mais grandioso é desfrutá-la sem jamais tê-la perdido. A angústia é insistir no vício de sofrer de livre e espontânea vontade. Amar pode ser sofrer, mas hoje gostaria de ampliar o rol de possibilidades que o amor traz em si para acrescentar que também existe um prazer e uma plenitude. É sentir-se completo, ainda que não dure.
Antes que perguntem, não estou amando. Tenho medo e não pretendo tomar uma atitude brava ainda, mas é bom saber que a opção existe. Quando houver dor, nada vai restar a fazer senão chorar, quando houver alegria devo rir. Quando me sentir sombrio serei temível, quando estiver triste serei calado. Para tudo haverá tempo, espero poder me livrar do fatalismo de pensar que estou fadado a morrer só e em agonia.
É válido sentir amor? Sim, sempre que for sincero. Acho que no fim das contas, pensar sobre o amor é mais fácil. Mas aí amar fica mais difícil.
quinta-feira, dezembro 16, 2004
Machado
Dado que acabo de publicar algo um pouco estúpido na forma, embora sincero e sentido no conteúdo, tentarei me redimir com uns poucos versos de Antonio Machado, que via a descobrir de maneira improvável lendo Kissinger, e pelo qual vim a me interessar por conta de um artigo de Olavo de Carvalho. Engraçado, até então, de poesia em espanhol eu só havia lido um pouco de Camões...
"En el corazón tenía
la espina de una pasión;
logré arrancármela un día:
ya no siento el corazón."
Antonio Machado
Evidente que o trecho não vai aqui à toa. Para mim está cheio de sentido, mas como não faço diário aqui, esse é o máximo que vou dizer.
"En el corazón tenía
la espina de una pasión;
logré arrancármela un día:
ya no siento el corazón."
Antonio Machado
Evidente que o trecho não vai aqui à toa. Para mim está cheio de sentido, mas como não faço diário aqui, esse é o máximo que vou dizer.
Mambo Jambo
O tempo presente, grávido de uma clareza científica de credibilidade questionável, regido por leis de eficiência e progresso (e ao que parece muito longe de se ver livre das aspirações positivistas do longo século dezenove), flerta também com o místico e o esotérico de forma bastante aberta. Todavia, filtra-se essa experiência sobrenatural por meio de um utilitarismo na busca pelas artes a que se recorre para saber o futuro, autoconhecer-se, encontrar paz interior, canalizar o guia espiritual, o que seja. Tudo se dá em prol de um hedonismo contemporâneo, de um difuso e praticamente indefinível “viver bem” que é resultado de nossa aparente falta de valores e limites e tão mutável quanto a moda.
Todo aparato-esotérico, misterioso, tornou-se objeto de apreciação mercadológica, o que coloca tais práticas bem longe do que se propuseram a ser quando surgiram. Isso para não comentar do que se criou recentemente: emaranhados confusos de aforismos difusos de filosofias diversas e religiões distintas (quando não conflitantes). E há também muito dinheiro nisso tudo. As pessoas que trataram de investigar antigos mistérios e esoterismos a sério parecem ser uma minoria silenciosa diante das máquinas de fazer dinheiro que se constroem calcadas pura e simplesmente num palavrório vazio e na estreiteza de visão do seu público consumidor.
“Eu acredito num poder maior, uma coisa assim indefinível, muito grande, que está em tudo, misteriosa...” São mais e mais pessoas falando algo do gênero e se tratando através de luzes coloridas, fazendo dietas estranhas, falando palavras inventadas que seriam alguma pérola de sabedoria perdida e por aí vai. Aparentemente a falta de valores não extinguiu a necessidade de um anestésico mental que substituísse a absolvição da igreja, sem as necessárias etapas da culpa e do arrependimento. Afinal as novas teorias místicas, filosóficas (num sentido bem chulo do termo) ou religiosas são perfeitamente adaptáveis a qualquer tipo de orientação pessoal de conduta, basta que a pessoa escolha o que melhor lhe serve.
Não me parece que seja algo incompreensível que algumas pessoas entrem em cultos ou seitas para perder seus próprios nomes, na verdade a psicologia explica, mas numa análise mais geral, basta olhar para a maneira como as pessoas são crédulas em relação a um sem número de coisas, desde duendes até os atuais paradigmas científicos. Quais são os critérios de aceitabilidade de idéias por parte da grande maioria das pessoas além da influência da propaganda e dos preconceitos herdados e adquiridos? Mas o problema é justamente saber como fazer para não se deixar influir, mesmo que seja um pouco, por essas manifestações cabais de cretinice em seus mais variados graus. Esse problema tem solução simples de ser nomeada e difícil de ser implementada: seria necessário fazer com que pensassem, coisa que a maioria se recusa a fazer.
O racionalismo nos legou um mundo desligado de Deus, mas não acabou com a necessidade humana de Deus. No vácuo deixado pela religião (e falo aqui da religião ocidental, judaico-cristã, por tratar de um fenômeno ocidental) em fuga dos ataques da ideologia laicizante que parece reinar entre a maior parte da “intelectualidade” inspirada por Marx, Nietszche, Schopenhauer ou sabe-se lá quem, foram se elaborando tantas bobagens mais ou menos salutares, mais ou menos perigosas, que é tarefa, se não impossível, dificílima enumera-las.
Tudo isso me faz pensar se não deveria ter um daqueles selos no carro dizendo “Eu atropelo Duendes!” Seria pouco sensato falar de modo tão genérico se eu não tivesse uma posição formada a respeito do assunto, o fato é que tenho: uma postura religiosa fundada em um critério de tradição, o que é melhor do que podem os meus alvos neste texto dizer, apoiado por algumas incipientes pitadas da pouca filosofia que pude amealhar em tão pouco tempo de leitura (e de vida), mas que seguramente relegam à religião um lugar digno de sua importância na integralidade do que é a vida humana.
Assim sendo, fico obviamente indignado ao ver o que se tem seguido nos dias de hoje (observando do alto dessa tradição religioso-filosófica ocidental que me é tão cara por sua característica tão mais humana e ao mesmo tempo mais divina) sem no entanto poder fazer muito a respeito. Se não consigo convencer alguém a ler um livro decente, a aprender a articular melhor o raciocínio, a conversar sobre alguma coisa problemática não prática, certamente não vou convencer a pessoa a entrar de cabeça num debate religioso minimamente sério a ponto de fazer clara a óbvia justeza de meu ponto de vista. Volto a colocar como motivo o problema endêmico da preguiça mental.
Não sou nenhum idiota para deixar de notar o ranço de arrogância na forma como me expresso aqui, mas há de se convir que, de tempos em tempos, nos sentimos aborrecidos com o estado das coisas em um ou outro campo da vida humana e, por tanto, suficientemente autorizados, não a prescrever comportamentos, mas a criticar certas posturas que me parecem sintomas de nossa decadência enquanto sociedade. Como já disse uma vez um filósofo, não me lembro o nome, numa conversa informal faz alguns anos, “É preciso catequizar esse povo...” Ele não deixa de ter razão, pensando na idéia geral que repousa por trás da frase.
Todo aparato-esotérico, misterioso, tornou-se objeto de apreciação mercadológica, o que coloca tais práticas bem longe do que se propuseram a ser quando surgiram. Isso para não comentar do que se criou recentemente: emaranhados confusos de aforismos difusos de filosofias diversas e religiões distintas (quando não conflitantes). E há também muito dinheiro nisso tudo. As pessoas que trataram de investigar antigos mistérios e esoterismos a sério parecem ser uma minoria silenciosa diante das máquinas de fazer dinheiro que se constroem calcadas pura e simplesmente num palavrório vazio e na estreiteza de visão do seu público consumidor.
“Eu acredito num poder maior, uma coisa assim indefinível, muito grande, que está em tudo, misteriosa...” São mais e mais pessoas falando algo do gênero e se tratando através de luzes coloridas, fazendo dietas estranhas, falando palavras inventadas que seriam alguma pérola de sabedoria perdida e por aí vai. Aparentemente a falta de valores não extinguiu a necessidade de um anestésico mental que substituísse a absolvição da igreja, sem as necessárias etapas da culpa e do arrependimento. Afinal as novas teorias místicas, filosóficas (num sentido bem chulo do termo) ou religiosas são perfeitamente adaptáveis a qualquer tipo de orientação pessoal de conduta, basta que a pessoa escolha o que melhor lhe serve.
Não me parece que seja algo incompreensível que algumas pessoas entrem em cultos ou seitas para perder seus próprios nomes, na verdade a psicologia explica, mas numa análise mais geral, basta olhar para a maneira como as pessoas são crédulas em relação a um sem número de coisas, desde duendes até os atuais paradigmas científicos. Quais são os critérios de aceitabilidade de idéias por parte da grande maioria das pessoas além da influência da propaganda e dos preconceitos herdados e adquiridos? Mas o problema é justamente saber como fazer para não se deixar influir, mesmo que seja um pouco, por essas manifestações cabais de cretinice em seus mais variados graus. Esse problema tem solução simples de ser nomeada e difícil de ser implementada: seria necessário fazer com que pensassem, coisa que a maioria se recusa a fazer.
O racionalismo nos legou um mundo desligado de Deus, mas não acabou com a necessidade humana de Deus. No vácuo deixado pela religião (e falo aqui da religião ocidental, judaico-cristã, por tratar de um fenômeno ocidental) em fuga dos ataques da ideologia laicizante que parece reinar entre a maior parte da “intelectualidade” inspirada por Marx, Nietszche, Schopenhauer ou sabe-se lá quem, foram se elaborando tantas bobagens mais ou menos salutares, mais ou menos perigosas, que é tarefa, se não impossível, dificílima enumera-las.
Tudo isso me faz pensar se não deveria ter um daqueles selos no carro dizendo “Eu atropelo Duendes!” Seria pouco sensato falar de modo tão genérico se eu não tivesse uma posição formada a respeito do assunto, o fato é que tenho: uma postura religiosa fundada em um critério de tradição, o que é melhor do que podem os meus alvos neste texto dizer, apoiado por algumas incipientes pitadas da pouca filosofia que pude amealhar em tão pouco tempo de leitura (e de vida), mas que seguramente relegam à religião um lugar digno de sua importância na integralidade do que é a vida humana.
Assim sendo, fico obviamente indignado ao ver o que se tem seguido nos dias de hoje (observando do alto dessa tradição religioso-filosófica ocidental que me é tão cara por sua característica tão mais humana e ao mesmo tempo mais divina) sem no entanto poder fazer muito a respeito. Se não consigo convencer alguém a ler um livro decente, a aprender a articular melhor o raciocínio, a conversar sobre alguma coisa problemática não prática, certamente não vou convencer a pessoa a entrar de cabeça num debate religioso minimamente sério a ponto de fazer clara a óbvia justeza de meu ponto de vista. Volto a colocar como motivo o problema endêmico da preguiça mental.
Não sou nenhum idiota para deixar de notar o ranço de arrogância na forma como me expresso aqui, mas há de se convir que, de tempos em tempos, nos sentimos aborrecidos com o estado das coisas em um ou outro campo da vida humana e, por tanto, suficientemente autorizados, não a prescrever comportamentos, mas a criticar certas posturas que me parecem sintomas de nossa decadência enquanto sociedade. Como já disse uma vez um filósofo, não me lembro o nome, numa conversa informal faz alguns anos, “É preciso catequizar esse povo...” Ele não deixa de ter razão, pensando na idéia geral que repousa por trás da frase.
sábado, dezembro 11, 2004
Poesia e Prosa.
A melhor prosa é aquela que se pretende poesia. Ela flui da pena como que por milagre, sem o menor receio de não ser clara, embora seja, de não ser útil, embora seja, de não ser nada, enquanto trata de tudo que nos concerne enquanto humanos, pois como ela temos necessidade de poesia.
Essa prosa canta o amor como quem ama, sem floreios inúteis mas com a pretensão de se fazer bela para receber o amor. A prosa que ama não é nunca só por ter quem leia suas linhas em adoração extática e, sem poder agüentar dentro de si tanto sentimento, suspira.
A prosa que quer ser poesia é como o homem que senta em seu banco ao cair da tarde, acende um cigarro, olha para o mar e, ao ver a mulher que bem sabe que vai amar para o resto de sua vida, deseja ser o mar para abraçá-la. Esse suspiro entre a calma e o desejo é fundamental. É o exato momento em que a poesia nasce. Mas assim como o homem não é mar, logo a poesia percebe que será meramente prosa, com essa doce memória do que poderia ter sido. Enquanto o homem será a partir dali a sombra do que poderia ter sido se tivesse de fato amado a mulher logo após o suspiro.
A prosa que se pretende poesia, pretende ter sido poesia, mas não pretende mudar. O desejo de algo que não se foi, a única escolha que não se fez, é o que acomete a melhor prosa. Do mesmo modo acomete o homem, que sabe de sua natureza tola, delicada diante do mundo quando, na verdade, queria ser dele senhor. E o homem, como a prosa que faz, sente o desejo de poesia.
A beleza e o poder são as coisas mais impressionantes que podemos perceber. Não há quem não os sinta. Por essa razão a poesia nos é tão cara. Ela sintetiza o que nos toca, bela e fugaz, poderosa ao mesmo tempo que frágil, cálida e álgida conforme nossos próprios corações e mentes.
Proseio porque a poesia que possuo não tem palavras para se expressar. E eu, pobre de mim, não posso emprestar-lhe as minhas. O meu desejo de poesia é uma constante necessidade metafísica do belo. Como ela me escapa, busco ter, de beleza em minha vida, uma mulher. Como ela me escapa, sinto então novamente um desejo de poesia.
E eu mesmo permaneço prosa. Uma longa crônica de meus feitos pífios, das pegadas que deixo na areia do tempo. Sou como o homem que acende um cigarro, senta no banco e olha o tempo escorrer por entre os dedos, e a vida escorrer por entre os dedos, sem nem tentar fechar a mão. A vida passa, e por fim suprimos o desejo. Temos em nossa morte uma primeira e última poesia triste.
Essa prosa canta o amor como quem ama, sem floreios inúteis mas com a pretensão de se fazer bela para receber o amor. A prosa que ama não é nunca só por ter quem leia suas linhas em adoração extática e, sem poder agüentar dentro de si tanto sentimento, suspira.
A prosa que quer ser poesia é como o homem que senta em seu banco ao cair da tarde, acende um cigarro, olha para o mar e, ao ver a mulher que bem sabe que vai amar para o resto de sua vida, deseja ser o mar para abraçá-la. Esse suspiro entre a calma e o desejo é fundamental. É o exato momento em que a poesia nasce. Mas assim como o homem não é mar, logo a poesia percebe que será meramente prosa, com essa doce memória do que poderia ter sido. Enquanto o homem será a partir dali a sombra do que poderia ter sido se tivesse de fato amado a mulher logo após o suspiro.
A prosa que se pretende poesia, pretende ter sido poesia, mas não pretende mudar. O desejo de algo que não se foi, a única escolha que não se fez, é o que acomete a melhor prosa. Do mesmo modo acomete o homem, que sabe de sua natureza tola, delicada diante do mundo quando, na verdade, queria ser dele senhor. E o homem, como a prosa que faz, sente o desejo de poesia.
A beleza e o poder são as coisas mais impressionantes que podemos perceber. Não há quem não os sinta. Por essa razão a poesia nos é tão cara. Ela sintetiza o que nos toca, bela e fugaz, poderosa ao mesmo tempo que frágil, cálida e álgida conforme nossos próprios corações e mentes.
Proseio porque a poesia que possuo não tem palavras para se expressar. E eu, pobre de mim, não posso emprestar-lhe as minhas. O meu desejo de poesia é uma constante necessidade metafísica do belo. Como ela me escapa, busco ter, de beleza em minha vida, uma mulher. Como ela me escapa, sinto então novamente um desejo de poesia.
E eu mesmo permaneço prosa. Uma longa crônica de meus feitos pífios, das pegadas que deixo na areia do tempo. Sou como o homem que acende um cigarro, senta no banco e olha o tempo escorrer por entre os dedos, e a vida escorrer por entre os dedos, sem nem tentar fechar a mão. A vida passa, e por fim suprimos o desejo. Temos em nossa morte uma primeira e última poesia triste.
quinta-feira, dezembro 09, 2004
Uma Semana
Mal posso crer que já faz uma semana. Estou sem escrever desde semana passada, neste mesmo dia chuvoso e cinzento, se bem me recordo. Isso simplesmente poderia fornecer a alguém elementos para refutar minha tese sobre porque escrevo, que está publicada um pouco antes, mas não se trata disso. Eu tenho passado muito tempo estudando para provas e escrevendo um trabalho de Filosofia do Direito que será oportunamente publicado num outro blog que por enquanto permanecerá somente para testes já que o que vai para lá vai sem revisão.
De todo modo, a pesar de não ter dito mais nada sobre nada durante uma semana voltei, como um marido infiel retorna ao lar depois de uma noite insone jogando cartas e convivendo com prostitutas da pior espécie. Que fique claro que esta analogia não se trata de uma confissão, jamais convivi com prostitutas da pior espécie, ao menos não profissionais.
O mais interessante é que esse volteio verbal acaba servindo, como muitas vezes antes já aconteceu, para encobrir minha total falta de assunto. O fato é que estou relativamente feliz e um pouco ocupado e nada interessante me ocorre, ou ao menos nada tão interessante me ocorre nesses momentos quanto quando estou me sentindo um miserável. Mas ainda vou aprender a escrever sobre coisas mais leves como algodão doce e papel de seda.
(Se bem que há quem consiga aliar as coisas. Belle and Sebastian, por exemplo faz sempre aquelas músicas bonitinhas mas boa parte delas tem um não-sei-o-que de depressivo. Não é grande surpresa então que eu tenha quase todos os CD's da banda).
Se não posso reclamar das mulheres, dos livros, do novo sucesso do Latino ou do preço do dólar do que diabos eu posso falar? Dos dias de glória? Só tenho vinte e um anos, sobre Cowboy bebop, o melhor deseno animado já produzido? Aí pareceria que tenho doze anos (oque não passa tão longe de uma verdade mais profunda...). Deveria eu então elaborar um comentário sobvre mais uma obra prima do Jazz? Isso envolve um tempo que não me disponho a gastar agora.
Existem certas coisas que não entendo. Uma delas é a fantástica capacidade dos homens de encontrarem sempre algum motivo para reclamar. Eu estou aqui sentado faz uma meia hora reclamando (com maior ou menor intensidade, o que não me compete julgar, mas reclamando) da absoluta falta do que reclamar. O que é que me deixa tão inquieto no exato momento em que tudo está sob controle e nada de terrível aconteceu. Quero dizer aqui que nem ao menos era minha intenção chegar a uma conclusão como essa mas acho que Schopenhauer sabeia do que estava falando sobre a vontade jamais se satisfazer. Eu preciso de combustível para reclamar neste espaço sobre alguma coisa, caso contrário vou ter que começar a citar poesia alheia novamente (o que não seria mal se eu estivesse lendo poesia ultimamente e achasse algo para citar).
Tudo bem, não estou com a menor intenção de sair desse vazio de problemas que é tão confortável e quentinho, mas o diabo é que eu até que estava me divertindo enquanto esta infeliz. Ainda bem que com essas festividades de Ano Novo chegando eu vou poder voltar a me sentir mal por ainda estar solteiro e arranjar motivo para beber e desancar as mulheres que não me quiseram e também aquelas que quiseram mas não devriam ter querido (muito embora pareça crueldade é muito difícil rejeitar uma mulher, existem repercussões terríveis até para os mais valorosos de nós).
Voltarei a escrever quando estiver com um tema melhor em mente. Até então vou dar um jeito de arranjar um texto antigo de quando eu era mais triste. É o jeito. Mas não vejo problema algum em haver escrito isso aqui. Valeu o exercício.
De todo modo, a pesar de não ter dito mais nada sobre nada durante uma semana voltei, como um marido infiel retorna ao lar depois de uma noite insone jogando cartas e convivendo com prostitutas da pior espécie. Que fique claro que esta analogia não se trata de uma confissão, jamais convivi com prostitutas da pior espécie, ao menos não profissionais.
O mais interessante é que esse volteio verbal acaba servindo, como muitas vezes antes já aconteceu, para encobrir minha total falta de assunto. O fato é que estou relativamente feliz e um pouco ocupado e nada interessante me ocorre, ou ao menos nada tão interessante me ocorre nesses momentos quanto quando estou me sentindo um miserável. Mas ainda vou aprender a escrever sobre coisas mais leves como algodão doce e papel de seda.
(Se bem que há quem consiga aliar as coisas. Belle and Sebastian, por exemplo faz sempre aquelas músicas bonitinhas mas boa parte delas tem um não-sei-o-que de depressivo. Não é grande surpresa então que eu tenha quase todos os CD's da banda).
Se não posso reclamar das mulheres, dos livros, do novo sucesso do Latino ou do preço do dólar do que diabos eu posso falar? Dos dias de glória? Só tenho vinte e um anos, sobre Cowboy bebop, o melhor deseno animado já produzido? Aí pareceria que tenho doze anos (oque não passa tão longe de uma verdade mais profunda...). Deveria eu então elaborar um comentário sobvre mais uma obra prima do Jazz? Isso envolve um tempo que não me disponho a gastar agora.
Existem certas coisas que não entendo. Uma delas é a fantástica capacidade dos homens de encontrarem sempre algum motivo para reclamar. Eu estou aqui sentado faz uma meia hora reclamando (com maior ou menor intensidade, o que não me compete julgar, mas reclamando) da absoluta falta do que reclamar. O que é que me deixa tão inquieto no exato momento em que tudo está sob controle e nada de terrível aconteceu. Quero dizer aqui que nem ao menos era minha intenção chegar a uma conclusão como essa mas acho que Schopenhauer sabeia do que estava falando sobre a vontade jamais se satisfazer. Eu preciso de combustível para reclamar neste espaço sobre alguma coisa, caso contrário vou ter que começar a citar poesia alheia novamente (o que não seria mal se eu estivesse lendo poesia ultimamente e achasse algo para citar).
Tudo bem, não estou com a menor intenção de sair desse vazio de problemas que é tão confortável e quentinho, mas o diabo é que eu até que estava me divertindo enquanto esta infeliz. Ainda bem que com essas festividades de Ano Novo chegando eu vou poder voltar a me sentir mal por ainda estar solteiro e arranjar motivo para beber e desancar as mulheres que não me quiseram e também aquelas que quiseram mas não devriam ter querido (muito embora pareça crueldade é muito difícil rejeitar uma mulher, existem repercussões terríveis até para os mais valorosos de nós).
Voltarei a escrever quando estiver com um tema melhor em mente. Até então vou dar um jeito de arranjar um texto antigo de quando eu era mais triste. É o jeito. Mas não vejo problema algum em haver escrito isso aqui. Valeu o exercício.
sexta-feira, dezembro 03, 2004
Pessimismo, como se fosse alguma novidade...
Estou aqui em uma nova noite insone refletindo sobre a vacuidade dos meus últimos dias. Nada parece me satizfazer. Quando consigo o que quero, subtamente o que queria se desfaz, perde seu valor. Houve um tempo em que nutri a ilusão de que satisfazer algumas aspirações modestas bastaria, mas a coisa está ficando apertada. Nada compensa quando no fim das contas você está sozinho à noite escutando nada além dos próprios pensamentos.
Meus pensamentos, como se já não fosse claro, tem uma disposição diversa da minha costumeira fachada de alegria constante. O senso de realização pueril que tanto me animava já não está surtindo o efeito de antes. Minha irresponsabilidade, minha vontade de aproveitar esses dias de garoto novo, nada disso satisfaz. Como não sou dado a vícios acabo sempre nessa situação de não saber mais o que querer, o que procurar.
Meu consolo é que de vez em quando ainda posso rever os amigos. Eles dão um senso de que não estou só no mundo. Menos pelo apoio formal que dão e mais pelo fato de que parecem mais ou menos perdidos do que eu. Fora os loucos, esses não estão perdidos, estão simplesmente além de qualquer possibilidade de análise, excluídos de qulaquer observação racional.
Os cães ladram e a caravana passa... Eu queria lembrar quem foi que escreveu isso. Parece que não há nada mais pertinente para definir o que sinto agora. O mundo segue o curso que sempre seguiu e eu estou aqui procurando sentido onde não há. Nada faz menos sentido do que aquilo que é grande demais pra compreender. Como o mundo. Minha cabeça não poderia estar mais sobrecarregada do que agora.
Era mais fácil qunado eu passava os dias sonhando acordado. Eu sabia bem que queria o que não ia ter e pronto. Quanto mais as coisas se tornam possíveis, quano mais real o mundo, menos eu me encaixo nele. Me sinto um adolescente de novo. Talvez eu nunca tenha deixado de ser um.
Minhas missões, minhas determinações, hoje à noite parecem estar todas vencidas. Eu as derrotei agora antes que me frusrtasse. Nada tão triste ou tão irremediável, provávelmente vei melhorar pela manhã, mas sempre considero importante, quando estou feliz, lembrar de quando não estava. É algo que te dá uma perspectiva interessante sobre as coisas. Pouca gente pensa assim hoje, essa minha geração vive meramente em busca do prazer imediato. Na verdade eu também sou um pouco assim, mas a diferença é que percebo, nesses raros momentos de lucidez, o quanto tal existência é espúria. Eu me recuso a parar de pensar, me sinto culpado por me meter a fazer o que pura e simplesmente quero. Fui criado para fazer o que devo. É mais ou menos como a diferença entre viver e aproveitar a vida, são coisas diferentes, viver é mais penoso. Ainda não inventaram atividade tão autêntica, pessoal, única quanto viver. Por isso vivo, penso, e, por pior que possa parecer, ainda sonho. Quero poder olhar de longe para a multidão, sabendo que no fundo, ainda que por razões que só eu conheça, não fui um medíocre conviva que veio para a festa mas que, no meio da festividade, parei e me perguntei exatamente qual era a ocasião celebrada. Meu medo é que a festa acabe e a resposta não me ocorra.
Só para constar, a metáfora da vida como festa está batida, eu sei, mas não me ocorreu nada criativo, hoje não é dia de querer fazer nada brilhante. Diante do que sinto, seria um despropósito.
P.S. Após publicar o post descobri que a frase: Os cães ladram e a caravana passa" ou, como vim a ver na tradução para o inglês:"Dogs bark, but the caravan goes on", é um provérbio turco aparentemente antigo. O deserto é um lugar bonito, muito embora não haja nada lá. Como dizia o herói do filme, "It is clean", esse tanto basta. Essa coisa das caravanas sempre me lembra Lawrence da Arábia, romântico que sou, pensando em tempos mais evocativos do que a realidade, mesmo naquele tempo, jamais foi. Bem, era o que me cumpria acrescentar.
Meus pensamentos, como se já não fosse claro, tem uma disposição diversa da minha costumeira fachada de alegria constante. O senso de realização pueril que tanto me animava já não está surtindo o efeito de antes. Minha irresponsabilidade, minha vontade de aproveitar esses dias de garoto novo, nada disso satisfaz. Como não sou dado a vícios acabo sempre nessa situação de não saber mais o que querer, o que procurar.
Meu consolo é que de vez em quando ainda posso rever os amigos. Eles dão um senso de que não estou só no mundo. Menos pelo apoio formal que dão e mais pelo fato de que parecem mais ou menos perdidos do que eu. Fora os loucos, esses não estão perdidos, estão simplesmente além de qualquer possibilidade de análise, excluídos de qulaquer observação racional.
Os cães ladram e a caravana passa... Eu queria lembrar quem foi que escreveu isso. Parece que não há nada mais pertinente para definir o que sinto agora. O mundo segue o curso que sempre seguiu e eu estou aqui procurando sentido onde não há. Nada faz menos sentido do que aquilo que é grande demais pra compreender. Como o mundo. Minha cabeça não poderia estar mais sobrecarregada do que agora.
Era mais fácil qunado eu passava os dias sonhando acordado. Eu sabia bem que queria o que não ia ter e pronto. Quanto mais as coisas se tornam possíveis, quano mais real o mundo, menos eu me encaixo nele. Me sinto um adolescente de novo. Talvez eu nunca tenha deixado de ser um.
Minhas missões, minhas determinações, hoje à noite parecem estar todas vencidas. Eu as derrotei agora antes que me frusrtasse. Nada tão triste ou tão irremediável, provávelmente vei melhorar pela manhã, mas sempre considero importante, quando estou feliz, lembrar de quando não estava. É algo que te dá uma perspectiva interessante sobre as coisas. Pouca gente pensa assim hoje, essa minha geração vive meramente em busca do prazer imediato. Na verdade eu também sou um pouco assim, mas a diferença é que percebo, nesses raros momentos de lucidez, o quanto tal existência é espúria. Eu me recuso a parar de pensar, me sinto culpado por me meter a fazer o que pura e simplesmente quero. Fui criado para fazer o que devo. É mais ou menos como a diferença entre viver e aproveitar a vida, são coisas diferentes, viver é mais penoso. Ainda não inventaram atividade tão autêntica, pessoal, única quanto viver. Por isso vivo, penso, e, por pior que possa parecer, ainda sonho. Quero poder olhar de longe para a multidão, sabendo que no fundo, ainda que por razões que só eu conheça, não fui um medíocre conviva que veio para a festa mas que, no meio da festividade, parei e me perguntei exatamente qual era a ocasião celebrada. Meu medo é que a festa acabe e a resposta não me ocorra.
Só para constar, a metáfora da vida como festa está batida, eu sei, mas não me ocorreu nada criativo, hoje não é dia de querer fazer nada brilhante. Diante do que sinto, seria um despropósito.
P.S. Após publicar o post descobri que a frase: Os cães ladram e a caravana passa" ou, como vim a ver na tradução para o inglês:"Dogs bark, but the caravan goes on", é um provérbio turco aparentemente antigo. O deserto é um lugar bonito, muito embora não haja nada lá. Como dizia o herói do filme, "It is clean", esse tanto basta. Essa coisa das caravanas sempre me lembra Lawrence da Arábia, romântico que sou, pensando em tempos mais evocativos do que a realidade, mesmo naquele tempo, jamais foi. Bem, era o que me cumpria acrescentar.
terça-feira, novembro 23, 2004
Novidades dos 50's
Em termos de música existem três acontecimentos que foram essenciais em minha vida. Não fosse por eles eu certamente não seria o mesmo. Os três foram, em ordem cronológica, O Concierto de Aranjuez de Rodrigo, Kind of Blue de Miles Davis e finalmente a mais recente adição ao panteão: Time Out, do Dave Brubeck Quartet.
Imagine um garoto interiorano, caipira mesmo, com uma grande paixão por piano e objetivo muito claro na vida: crescer para virar vaqueiro. Dave iria cuidar da fazenda do pai e criar gado, até que um dia recebeu sua convocação para participar do esforço norte-americano de guerra contra o nazismo. Para a sorte dele, e para a minha, anos depois, a missão que recebeu foi participar de uma banda de jazz que iria entreter as tropas durante a campanha.
Gosto bastante dessa história, não só por que conheço bem o que passa pela cabeça de um garoto caipira (como só um garoto caipira podera conhecer), como me agrada a leveza com que o pianista Dave Brubeck a conta, o sorriso no rosto, a mesma leveza com a qual ele interpreta suas músicas.
A música de Brubeck soa extremamente moderna, para mim ao menos. Parece o tipo de música que as pessoas iriam ouvir no futuro, com seus ritmos sempre mudando e surpreendendo, com belas melodias, sem drama, sem dor, sem raiva... Ouço a música sentindo uma certa nostalgia de um tempo que não foi o meu. Mas parece perfeitamente natural para mim empreender essa viagem, afinal me sinto constantemente preso a esse tempo que não é o meu. A velocidade das mudanças, a falta de limites de cada geração que chega, a falta de... elegância, de ritmo (ou de swing, como queira), são males da era atual aos quais não vou nunca me acostumar. Isso e a comida de microondas.
Sempre ouço dos amigos que falo de modo um pouco anacrônico, como quem lê um discurso. Falo mais ou menos como escrevo, o que sempre parece estranho, especialmente em ocasiões que não pedem nada desse formalismo. Em qualquer ocasião acabo fazendo isso porque sempre me parece a maneira de tornar mais claro o sentido que pretendo transmitir. É justamente este atributo que transborda na música de Brubeck: clareza. Ela soa límpida, complexa e ainda sim agradável, inteligente, como deveriam ser todas as idéias, não só as musicais.
Time Out é uma album pouco usual dentro do jazz de sua época, foi lançado em 1959, pelas escolhas de ritmo feitas pelo quarteto para suas músicas. Somos constantemente surpreendidos pela mudança de ritmo, porém nem de longe somos tomados por confusão ou desnorteamento (o que é muito comum na música contemporânea de cunho vanguardista), o ritmo cambiante parece perfeitamente natural quando executado por mãos tão hábeis. Bem antes das incompreensíveis revoluções do free jazz, enquanto Miles Davis ainda fazia seu delicioso cool interpretando baladas românticas, Dave Brubeck e seu quarteto mostravam algo novo, inusitado e surpreendentemente criaram ao mesmo tempo um album clássico e popular.
Em todas as formas de arte essa é uma combinação rara. A inspiração nem sempre obedece à percepção do que o público esteja pronto para ouvir. Tal confluência só adiciona mais sabor à mistura ritmica e melódica que faz desse um disco tão gostoso de ouvir e ao mesmo tempo tão desafiador enquanto ideal artístico.
Agora algumas considerações de natureza diversa.
A importância de Time Out no plano pessoal se traduz no fato de que, como idéia, compreendi algo do album e tentei não só traduzir em palavras o que percebi, mas também assimilei muito do que escutei num nível mais... subcutâneo, por assim dizer. O meu encontro com essa espécie de música me deixou mais afastado do pessimismo dramático normalmente reinante em minha cabeça. Esse distanciamento me faz sentir tão aliviado que mal posso descrever o quanto.
O mais interessante é que pude ver como uma idéia musical pode ser valiosa, não para fins terapêuticos ou para diversão pura e simples mas no campo intelectual. Esse tipo de percepção nem sempre me acompanhou, especialmente quando a música me falava muito prontamente de emoções que eu, por meu lado, já estava predisposto a abrigar.
O último ponto que me falta percorrer nesse pequeno e irregular itinerário mental é certamente dizer que essas músicas que tanto me agradaram não tratam de amor, como Blue in Green ou Kathy's Song. E isso não me faz a menor falta. Sempre me considerei a cima de tudo um romântico e agora me descubro envolvido pelos prazeres de algo novo. Talvez seja por causa de Time Out que eu já não esteja mais clamando aos céus por algum novo insight sobre a mente feminina. Espero que dure um pouco antes que eu volte a ouvir aquelas canções tristes outra vez. Até lá é relaxar e aproveitar o passeio.
P.S. Eventualmente escrevo algo sobre Rodrigo também. Afinal ele é um dos mais emblemáticos representantes do que aconteceu de bom no século vinte.
Imagine um garoto interiorano, caipira mesmo, com uma grande paixão por piano e objetivo muito claro na vida: crescer para virar vaqueiro. Dave iria cuidar da fazenda do pai e criar gado, até que um dia recebeu sua convocação para participar do esforço norte-americano de guerra contra o nazismo. Para a sorte dele, e para a minha, anos depois, a missão que recebeu foi participar de uma banda de jazz que iria entreter as tropas durante a campanha.
Gosto bastante dessa história, não só por que conheço bem o que passa pela cabeça de um garoto caipira (como só um garoto caipira podera conhecer), como me agrada a leveza com que o pianista Dave Brubeck a conta, o sorriso no rosto, a mesma leveza com a qual ele interpreta suas músicas.
A música de Brubeck soa extremamente moderna, para mim ao menos. Parece o tipo de música que as pessoas iriam ouvir no futuro, com seus ritmos sempre mudando e surpreendendo, com belas melodias, sem drama, sem dor, sem raiva... Ouço a música sentindo uma certa nostalgia de um tempo que não foi o meu. Mas parece perfeitamente natural para mim empreender essa viagem, afinal me sinto constantemente preso a esse tempo que não é o meu. A velocidade das mudanças, a falta de limites de cada geração que chega, a falta de... elegância, de ritmo (ou de swing, como queira), são males da era atual aos quais não vou nunca me acostumar. Isso e a comida de microondas.
Sempre ouço dos amigos que falo de modo um pouco anacrônico, como quem lê um discurso. Falo mais ou menos como escrevo, o que sempre parece estranho, especialmente em ocasiões que não pedem nada desse formalismo. Em qualquer ocasião acabo fazendo isso porque sempre me parece a maneira de tornar mais claro o sentido que pretendo transmitir. É justamente este atributo que transborda na música de Brubeck: clareza. Ela soa límpida, complexa e ainda sim agradável, inteligente, como deveriam ser todas as idéias, não só as musicais.
Time Out é uma album pouco usual dentro do jazz de sua época, foi lançado em 1959, pelas escolhas de ritmo feitas pelo quarteto para suas músicas. Somos constantemente surpreendidos pela mudança de ritmo, porém nem de longe somos tomados por confusão ou desnorteamento (o que é muito comum na música contemporânea de cunho vanguardista), o ritmo cambiante parece perfeitamente natural quando executado por mãos tão hábeis. Bem antes das incompreensíveis revoluções do free jazz, enquanto Miles Davis ainda fazia seu delicioso cool interpretando baladas românticas, Dave Brubeck e seu quarteto mostravam algo novo, inusitado e surpreendentemente criaram ao mesmo tempo um album clássico e popular.
Em todas as formas de arte essa é uma combinação rara. A inspiração nem sempre obedece à percepção do que o público esteja pronto para ouvir. Tal confluência só adiciona mais sabor à mistura ritmica e melódica que faz desse um disco tão gostoso de ouvir e ao mesmo tempo tão desafiador enquanto ideal artístico.
Agora algumas considerações de natureza diversa.
A importância de Time Out no plano pessoal se traduz no fato de que, como idéia, compreendi algo do album e tentei não só traduzir em palavras o que percebi, mas também assimilei muito do que escutei num nível mais... subcutâneo, por assim dizer. O meu encontro com essa espécie de música me deixou mais afastado do pessimismo dramático normalmente reinante em minha cabeça. Esse distanciamento me faz sentir tão aliviado que mal posso descrever o quanto.
O mais interessante é que pude ver como uma idéia musical pode ser valiosa, não para fins terapêuticos ou para diversão pura e simples mas no campo intelectual. Esse tipo de percepção nem sempre me acompanhou, especialmente quando a música me falava muito prontamente de emoções que eu, por meu lado, já estava predisposto a abrigar.
O último ponto que me falta percorrer nesse pequeno e irregular itinerário mental é certamente dizer que essas músicas que tanto me agradaram não tratam de amor, como Blue in Green ou Kathy's Song. E isso não me faz a menor falta. Sempre me considerei a cima de tudo um romântico e agora me descubro envolvido pelos prazeres de algo novo. Talvez seja por causa de Time Out que eu já não esteja mais clamando aos céus por algum novo insight sobre a mente feminina. Espero que dure um pouco antes que eu volte a ouvir aquelas canções tristes outra vez. Até lá é relaxar e aproveitar o passeio.
P.S. Eventualmente escrevo algo sobre Rodrigo também. Afinal ele é um dos mais emblemáticos representantes do que aconteceu de bom no século vinte.
sexta-feira, novembro 19, 2004
Porque escrevo
Nada realmente bom me ocorreu para falar durante algum tempo, por isso nada escrevi. É bem verdade que se não tiver nada para dizer, uma pessoa deveria mesmo ficar quieta. Muito embora não tenha sempre seguido essa máxima um pouco batida e gasta pelo uso, tenho plena convicção de que ela terá me valido algumas vezes no fim das contas. Mas antes de fazer a matemática da vida que mal comecei, tenho algo para falar sobre o que estou fazendo justamente agora.
Estou aqui de novo. E isso acontece por um motivo (tudo, aliás, acontece por um motivo, já dizia o filósofo, e eu não poderia escapar a esse princípio). O fato novo é um estranho senso de responsabilidade que me tomou de assalto nesses últimos dias. Não imaginei que pudesse acontecer, mas a atividade de escrever simplesmente deixou de ser uma questão de mera opção (embora não o faça sem um certo prazer parte das vezes). A necessidade de escrever não me aflige como um vício, do modo que já ouvi falar que acontece com muitos escritores. Creio que isso se deva à circunstância de que não sou escritor, não sofro angústias em relação ao ofício e nem gozo das prerrogativas da função. Preciso escrever porque sinto que, de alguma forma estou obrigado a colocar pensamentos no papel e ponto final.
O problema de meu raciocínio é que obrigação, “ob ligatio”, ligado a, pressupõe que minha responsabilidade se dê em relação a alguém. A idéia é estar ligado a outra pessoa. Daí vem a pergunta: ligado a quem? Nunca fui buscar fora de mim razão para escrever, não creio que houvesse mesmo motivo além do fato de que era um bom exercício de higiene mental. Agora é uma responsabilidade. Saindo do âmbito do puramente pessoal para algo além do meu controle, que é externo a mim mas não está nos outros. Estou, no mínimo, confuso. E com razão. Continuo, no entanto tentando esclarecer-me.
Quando comecei, falava de responsabilidade e depois de obrigação, mas se não há outro sujeito na relação não poderia se tratar de nada disso. Sinto então que parece ser simplesmente natural estar escrevendo. Seria como se estivesse traindo a ordem das coisas caso me negasse a escrever. Todavia me parece pretensão demais imaginar que o que faço tem algo a ver com a ordem do universo. Tal atividade pode ter muito mais a ver com o mundo ordinário e desprovido de interesse que habitamos e ao qual nos acostumamos. É justamente à medida que nos acostumamos com o mundo que se torna mais necessário que uma pessoa escreva sobre ele. É importante que alguém faça recortes que destaquem os aspectos interessantes das coisas comuns, das vidas dos homens, do que se passa na cabeça deles, do que pode ser interessante no mundo.
Mas também não é o que faço. Até agora só tenho feito falar do que acontece comigo. Já considero esse tanto bastante trabalho, mas não vejo como a minha opinião a meu próprio respeito possa servir a qualquer outra pessoa. Então o que explica minha estranha obrigação que não é obrigação, necessidade que não é necessidade, utilidade inútil, fundamento último do que escrevo?
Não tenho esperança de encontrar resposta. Na dúvida sigo minha primeira diretriz: quando houver algo para dizer, digo. Caso contrário, vou sair a procurar assunto. Na falta de explicação é melhor continuar escrevendo e esperar que a resposta me pegue preparado para tomar nota e finalmente entender por que escrevo.
Estou aqui de novo. E isso acontece por um motivo (tudo, aliás, acontece por um motivo, já dizia o filósofo, e eu não poderia escapar a esse princípio). O fato novo é um estranho senso de responsabilidade que me tomou de assalto nesses últimos dias. Não imaginei que pudesse acontecer, mas a atividade de escrever simplesmente deixou de ser uma questão de mera opção (embora não o faça sem um certo prazer parte das vezes). A necessidade de escrever não me aflige como um vício, do modo que já ouvi falar que acontece com muitos escritores. Creio que isso se deva à circunstância de que não sou escritor, não sofro angústias em relação ao ofício e nem gozo das prerrogativas da função. Preciso escrever porque sinto que, de alguma forma estou obrigado a colocar pensamentos no papel e ponto final.
O problema de meu raciocínio é que obrigação, “ob ligatio”, ligado a, pressupõe que minha responsabilidade se dê em relação a alguém. A idéia é estar ligado a outra pessoa. Daí vem a pergunta: ligado a quem? Nunca fui buscar fora de mim razão para escrever, não creio que houvesse mesmo motivo além do fato de que era um bom exercício de higiene mental. Agora é uma responsabilidade. Saindo do âmbito do puramente pessoal para algo além do meu controle, que é externo a mim mas não está nos outros. Estou, no mínimo, confuso. E com razão. Continuo, no entanto tentando esclarecer-me.
Quando comecei, falava de responsabilidade e depois de obrigação, mas se não há outro sujeito na relação não poderia se tratar de nada disso. Sinto então que parece ser simplesmente natural estar escrevendo. Seria como se estivesse traindo a ordem das coisas caso me negasse a escrever. Todavia me parece pretensão demais imaginar que o que faço tem algo a ver com a ordem do universo. Tal atividade pode ter muito mais a ver com o mundo ordinário e desprovido de interesse que habitamos e ao qual nos acostumamos. É justamente à medida que nos acostumamos com o mundo que se torna mais necessário que uma pessoa escreva sobre ele. É importante que alguém faça recortes que destaquem os aspectos interessantes das coisas comuns, das vidas dos homens, do que se passa na cabeça deles, do que pode ser interessante no mundo.
Mas também não é o que faço. Até agora só tenho feito falar do que acontece comigo. Já considero esse tanto bastante trabalho, mas não vejo como a minha opinião a meu próprio respeito possa servir a qualquer outra pessoa. Então o que explica minha estranha obrigação que não é obrigação, necessidade que não é necessidade, utilidade inútil, fundamento último do que escrevo?
Não tenho esperança de encontrar resposta. Na dúvida sigo minha primeira diretriz: quando houver algo para dizer, digo. Caso contrário, vou sair a procurar assunto. Na falta de explicação é melhor continuar escrevendo e esperar que a resposta me pegue preparado para tomar nota e finalmente entender por que escrevo.
sábado, novembro 13, 2004
Longe de casa..
Bem, o título auto explicativo do post evidencia o fato de que estou longe de minha base usual no misterioso interior paulista, terra de violeiros, rodeios, alta tecnologia e produção cultural efervescente. Me encontro na vizinha Paulínia, conhecida por sua notória indústria petroquímica e pela desconcertante política local.
Por aqui privo da companhia de amigos bastante queridos e estou sendo bem alimentado. Assim não vou escrever reclamando de nada. Meramente registro minha passagem por essas bandas de cá para preencher o tempo escasso com algo diverso do trabalho que deveria estar desenvolvendo. Esse antigo costume está com jeito de que vai perdurar por anos a fio, aliás. Nada tão grave. Meu futuro repousa sobre uma sólida fundação de sonhos e puro ar. Não, isso não me preocupa, meramente me anima a ser cada vez mais autenticamente eu.
Estou longe de casa. Não tão longe, mas qualquer distância é uma boa desculpa para falar de casa. Mas não me surpreenderia se um dia fosse embora de lá. Minha casa está onde estiver meu coração, e ele é mais inconstante do que eu gostaria que fosse. Sinto falta da minha velha vida, mas se não posso tê-la de volta não há porque manter o quintal, o pé de jaboticaba, o sol caindo na tardinha, o canto dos pássaros. Só preciso da memória, ela vai me bastar, ela vai ter que bastar.
Acho que nunca amei ninguém tanto quanto amei as lembranças. Espero que me sirvam de algo essas lembranças que amo. Se não servirem pra mais nada, espero que as esqueça. Aí quem sabe eu possa até amar alguém. Por enquanto sigo apaixonado pela criança que não fui mas a que acho que fui, com toda a minha gravidade no olhar já perdida e minha honestidade incondicional paulatinamente sufocada pela necessidade de mentir e de enganar. Especialmente de mentir para mim. Sou um traidor.
Se sou um traidor, não há por que continuar em casa, maculando o ambiente das lembranças que amo e das tardes pelas quais suspiro ainda hoje. Assim devo sair de casa para um lugar mais condizente com minha condição de rebelde expulso do céu. Mas nunca ouvi falar de anjo algum que tenha ido para o exílio de livre e espontânea vontade. Tudo bem, nunca fui anjo, só caído de meu infantil estado de graça.
Acho que nunca estive tão longe de casa..
Por aqui privo da companhia de amigos bastante queridos e estou sendo bem alimentado. Assim não vou escrever reclamando de nada. Meramente registro minha passagem por essas bandas de cá para preencher o tempo escasso com algo diverso do trabalho que deveria estar desenvolvendo. Esse antigo costume está com jeito de que vai perdurar por anos a fio, aliás. Nada tão grave. Meu futuro repousa sobre uma sólida fundação de sonhos e puro ar. Não, isso não me preocupa, meramente me anima a ser cada vez mais autenticamente eu.
Estou longe de casa. Não tão longe, mas qualquer distância é uma boa desculpa para falar de casa. Mas não me surpreenderia se um dia fosse embora de lá. Minha casa está onde estiver meu coração, e ele é mais inconstante do que eu gostaria que fosse. Sinto falta da minha velha vida, mas se não posso tê-la de volta não há porque manter o quintal, o pé de jaboticaba, o sol caindo na tardinha, o canto dos pássaros. Só preciso da memória, ela vai me bastar, ela vai ter que bastar.
Acho que nunca amei ninguém tanto quanto amei as lembranças. Espero que me sirvam de algo essas lembranças que amo. Se não servirem pra mais nada, espero que as esqueça. Aí quem sabe eu possa até amar alguém. Por enquanto sigo apaixonado pela criança que não fui mas a que acho que fui, com toda a minha gravidade no olhar já perdida e minha honestidade incondicional paulatinamente sufocada pela necessidade de mentir e de enganar. Especialmente de mentir para mim. Sou um traidor.
Se sou um traidor, não há por que continuar em casa, maculando o ambiente das lembranças que amo e das tardes pelas quais suspiro ainda hoje. Assim devo sair de casa para um lugar mais condizente com minha condição de rebelde expulso do céu. Mas nunca ouvi falar de anjo algum que tenha ido para o exílio de livre e espontânea vontade. Tudo bem, nunca fui anjo, só caído de meu infantil estado de graça.
Acho que nunca estive tão longe de casa..
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