sábado, janeiro 05, 2013

Digressão metafísica sobre How I Met Your Mother

Um dos meus guilty pleasures favoritos nas horas de ócio é assistir a série How I Met Your Mother na CBS. É umas das duas iniciativas bem sucedidas de melhorar a idéia central de Friends, a outra sendo Coupling (as novas gerações que acham que Friends é uma porcaria tem toda rzão, apenas lembrem-se que era um dos melhores programas disponíveis na época - we didn't know any better). Um grupo de amigos, suas desastradas aventuras romântico-sexuais e seus relacionamentos intestinos - o que me pareceria até um pouco fantasioso se eu não tivesse visto grupelhos assim na vida real - e, como não poderia deixar de ser a série se passa em Nova Yorque. Aliás, para que não reste dúvida sobre as semelhanças entre as séries, alguma pessoa com o mesmo insight que eu e muito mais habilidades com o editor de vídeo criou esta abertura alternativa para How I Met Your Mother e postou no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=GWLh65OTqHY

Seja lá como for, a série é muito engraçada, embora nada acrescente de substancial ao intelecto do espectador, como todo bom seriado de evasão deve ser (ao contrário, por exemplo, dos melhores episódios de Frasier, que me deixam pensativo depois do riso). Recomendo especial atenção para a atuação sempre espetacular de Neil Patrick Harris, cujo personagem, Barney Stinson, rouba quase todas as cenas nas quais aparece. O fato de Harris ser um homossexual assumido cujo personagem é um mulherengo conquistador (termos do tempo de meu avô que emprego porque os equivalentes modernos são chulos demais e parecem ridículos quando saem da minha boca) me faz sempre lembrar - guardadas as devidas proporções - de Rock Hudson, especialmente porque o galã dos anos sessenta também era um ótimo ator cômico, para meu gosto.

Não foi por causa de Neil Patrick Harris ou Friends que me lembrei de How I Met Your Mother hoje. O que me pôs a pensar no seriado foi um trecho do livro "A Origem da Linguagem" do filósofo Eugen Rosenstock-Huessy. Transcrevo: "Um amigo dos meus tempos de estudante em Heidelberg usava a expressão 'de algum modo' (irgendwie) para designar todos os mistérios da vida. Concluímos que usava essa expressão em lugar do nome de Deus, e assim era de fato. Onde as gerações anteriores haviam falado na vontade ou ajuda de Deus, ele satisfazia-se com o incerto e o vago." O trecho me remeteu imediatamente à constatação de que todos os personagens no seriado incorrem numa das práticas modernas que mais me irrita: a personalização do universo. Desse modo, a todo tempo em How I Met Your Mother ouvimos coisas do tipo (paráfrases minhas): "O universo está querendo me dizer alguma coisa", "Deixe o universo decidir", e assim por diante. Como se o universo fosse uma inteligência dotada de vontade, desígnio e capacidade de ação, e, pior, uma inteligência investida de um interesse pelos problemas sentimentais de um grupo de amigos novaiorquinos!

Chega a ser engraçado, e um pouco triste, ver a que chegou a cultura popular contemporânea, termômetro da weltanschauung das massas e, muitas vezes, da elite também. Fico a me na época perguntar, junto com o comediante Billy Gardell (no excelente espetáculo solo Halftime), quando foi que se tornou démodé ou de mau gosto acreditar em Deus e chamá-Lo pelo nome? Parece que rapidamente o mundo passou a dizer com Carl Sagan que o Cosmos é tudo o que é, foi e será; e a frase, tanto mais crida quanto menos compreendidas e meditadas são suas implicações, acaba servindo de substituto - fajuto - para a necessidade existencial do ser humano de viver conforme uma metafísica minimamente coerente. Troca-se Deus, aquele que já é nosso velho conhecido, pois se deu a conhecer repetidas vezes ao longo da história, pelo espacialmente incomensurável, inimaginável e impessoal, enfim, pelo "incerto e vago".

Porém, a adesão nominal à fé "científica" no cosmos, no universo, não desata o nó da alma que, volta e meia, insiste em se fazer sentir. O credo moderno de que Deus é odioso, desinteressante ou inexistente não é capaz de dar conta da nossa necessidade, por virtude da forma como fomos criados, de relacionar-nos com um Deus pessoal. Nem o mero teísmo verborrágico, nem o ateísmo mais histérico são capazes de abafar o silêncio denso, opressivo, quase táctil, que a ausência de Deus perante a consciência é capaz de causar. Daí a tentativa tragicômica de personalizar o universo, tentativa de tornar a realidade em torno menos aleatória, menos hostil. Sob o fundo de risadas enlatadas do seriado de televisão, escuta-se o gemido surdo do nome que não se ousa dizer. Gozado como certas ausências acabam tornando o ausente presente como nunca.

Estou cada vez mais convencido de que se nessa geração politicamente correta, cientificista, hedonista e perdida, falar de Deus é inconveniente, por vezes arriscado, talvez até perigoso, não falar de Deus é suicídio.

quinta-feira, dezembro 27, 2012

Tegner's Drapa


Estes versos estão associados com a experiência de conversão de C.S. Lewis: "Balder the Beautiful 
Is dead, is dead!". Li um comentário a respeito, en passant, e acabei me interessando pelo poema de Longfellow. O poema exprime com belo lirismo o ocaso dos deuses pagãos e indica, calmamente, a chegada desses últimos dias, a era do Cristo.

Tegner's Drapa

Henry Wadsworth Longfellow

I HEARD a voice, that cried,
"Balder the Beautiful
Is dead, is dead!"
And through the misty air
Passed like the mournful cry
Of sunward sailing cranes.
I saw the pallid corpse
Of the dead sun
Borne through the Northern sky.
Blasts from Niffelheim
Lifted the sheeted mists
Around him as he passed.

And the voice forever cried,
"Balder the Beautiful
Is dead, is dead!"
And died away
Through the dreary night,
In accents of despair.

Balder the Beautiful,
God of the summer sun,
Fairest of all the Gods!
Light from his forehead beamed,
Runes were upon his tongue,
As on the warrior's sword.

All things in earth and air
Bound were by magic spell
Never to do him harm;
Even the plants and stones;
All save the mistletoe,
The sacred mistletoe!

Hoeder, the blind old God,
Whose feet are shod with silence,
Pierced through that gentle breast
With his sharp spear, by fraud,
Made of the mistletoe!
The accursed mistletoe!

They laid him in his ship,
With horse and harness,
As on a funeral pyre.
Odin placed
A ring upon his finger,
And whispered in his ear.

They launched the burning ship!
It floated far away
Over the misty sea,
Till like the sun it seemed,
Sinking beneath the waves.
Balder returned no more!

So perish the old Gods!
But out of the sea of Time
Rises a new land of song,
Fairer than the old.
Over its meadows green
Walk the young bards and sing.

Build it again,
O ye bards,
Fairer than before;
Ye fathers of the new race,
Feed upon morning dew,
Sing the new Song of Love!

The law of force is dead!
The law of love prevails!
Thor, the thunderer,
Shall rule the earth no more,
No more, with threats,
Challenge the meek Christ.

Sing no more,
O ye bards of the North,
Of Vikings and of Jarls!
Of the days of Eld
Preserve the freedom only,
Not the deeds of blood!

Peço desculpas

Por algum motivo que desconheço, o blogger me manda notificações de comentários com meses de atraso. Peço desculpas aos comentadores, cujos comentários estão agora devidamente publicados. Estou sinceramente constrangido. Fique então registrado para quem por acaso voltar a este sítio aquilo que passou.

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Não-natal

O natal passou sem grandes acontecimentos. O jantar foi excelente, queijos e vinhos, mas tomei cerveja a noite toda. O peru deu logo sono e, feito cachorros magros, A. e eu nos desculpamos e fomos para casa. E mesmo sem nada interessante a dizer, achei por bem escrever algo, a fim de que 2012 não passasse em branco.

Foi um ano esquisito. Começou sem saber para onde A. e eu íamos os mudar. Comecei a trabalhar à noite e descobri que não me convém. É a vida. Depois veio a mudança e nossa extraordinária e cansativa jornada pelo sudoeste americano até a costa oeste. Saímos de Dallas e fomos parar (quatro dias depois) perto da capital da Califórnia, onde montamos acampamento (ou melhor, montamos apartamento, embora se pareça com um acampamento no mais das vezes). Não vimos o Grand Cânion, Vegas é, nas palavras da querida Leila Amadori, deprimente. Especialmente se você se hospeda no final da strip, lá onde "o filho chora e a mãe não vê". Mal chegamos e lancei-me ao novo trabalho, braçal porém honesto, enquanto tratamos de fazer o possível para acostumar os sentidos aos novos ares e às novas paisagens. É muita beleza para engolir de uma vez só. Aliás, numa coisa a Califórnia é como o Brasil: natureza cativante, porém o povo quer ser mais comunista que o Che.

Essa correria de um ano inteiro me deixou desgostoso. Um dia desses fiquei pensando em algumas coisas que gostaria de fazer para médio e longo prazo. Parecem tão distantes. Uma delas, talvez a mais simples, era voltar a escrever aqui.Quanto me falta para ser quem eu gostaria! (Tenho até medo de voltar a ler esta página e descobrir que ainda sou um adolescente aborrecido e choramingador como era a tantos anos atrás). Meu mal é apatia. Falta de vontade. Não faço cada que não seja por obrigação, e aí acabo fazendo de má vontade. Mentira, faço coisas por gosto sim, mas não com a concentração que mereciam. Ah, nem tudo é ruim, mas só por hoje acaba sendo. Só por hoje.

Perdoem o mau-humor, mas essa chuva, esse Sauvignonese, botam a gente irritado como um cão.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Breve nota sobre a campanha anti-tabagismo do Dr. Drauzio Varella


Hoje à noite, minha esposa e eu estávamos assistindo o Fantástico. Triste, sei. Começou a passar o seguimento em que o Dr. Drauzio Varella investe contra o tabagismo. Em homenagem ao esforços do doutor, amparado pelo império midiático da Rede Globo, o governo federal brasileiro e umas quantas organizações internacionais, minha amada e eu decidimos tomar uma atitude. Saímos da sala e, enfrentando um frio de 7 graus celsius (e minha persistente infecção na garganta), e fomos para o pátio onde acendemos um cigarro cada um enquanto o bom doutor terminava sua choradeira.
Doutor, vá promover engenharia social na !%$@#$#$*&*#! (ou seja: na casa da senhora sua mãe).

sábado, novembro 26, 2011

Uma coisa curiosa que percebi na Village Church

Estava lembrando dos últimos sermões que escutei na Village Church e um certo padrão começou a me chamar a atenção. Tanto Matt Chandler quanto Steve Hardin parecem compartilhar de uma espécie de monomania: eles podem estar pregando um sermão sobre qualquer tema no universo - de mecânica de automóveis a Twilight (o que nunca é o caso ali, mas imagine) - e mesmo assim eles vão invariavelmente falar sobre o evangelho. Bem simples, provavelmente leva uns dois minutos para apresentar e aparece em todo sermão sem exceção.

Nós fomos criados por um Deus infinitamente Santo para viver ao lado Dele, pecamos e incorremos em Sua ira, estamos todos condenados, mas Cristo Jesus, Deus encarnado, o Filho de Deus, veio a este mundo, no qual viveu uma vida sem pecado e, mesmo assim, recebeu em seu corpo a justa punição pelos pecados de toda a humanidade e toda a ira de Deus recaiu sobre ele para que todos aqueles que fossem chamados e cressem em Jesus fossem considerados justos por causa da justiça dele a estes imputada e fossem  para gozar com ele da vida eterna ao lado do Pai.

Quase dá para falar num fôlego só. Eles falam alguma coisa parecida com isso em todo o sermão, em toda e qualquer ocasião, às vezes orando, às vezes conversando... Achei isso curioso no começo. Foi aí que me dei conta de que existem muitos pregadores por aí que vão pregar sermões tópicos sobre os mais variados temas (futebol, saúde, justiça social, o preço do pão francês e por aí vai), outros pregam sobre temas bíblicos relacionando-os com algum tipo de problema pessoal com o qual as massas se identifiquem (marido que ignora a mulher, mulher que aporrinha o marido, chefe que aborrece o funcionário, a lentidão do funcionalismo público, as notícias do dia...). O que se tornou menos comum é a pregação de mensagens centradas no evangelho.

Esta é uma boa mensagem para inserir em uma série de explicações que cristãos comumente são instados a dar aos infiéis - o que você faz todo domingo de manhã, por que tem um peixe no parachoque do seu carro, porque você não leva sua namorada para o motel, como pode um sujeito inteligente como você acreditar em Deus...

 

Um incidente não relacionado que escutei no programa Wretched Radio foi uma entrevista com uma jovenzenha sobre religião, entrevista essa que é emblemática da situação de muita gente aqui no "Bible belt" e também no Brasil, país que tem muito sentimento religioso e pouca fé racional - aquela na qual se está quando o respeito pelas coisas de Deus reprime a vontade de falar quaisquer besteiras com ar de santidade, coisa rara no Brasil onde o verso bíblico mais citado é "Deus escreve certo por linhas tortas". Voltando ao assunto, perguntaram à menina no meio da entrevista (na qual a sujeita já dissera que as coisas mais importantes para ela eram a família e a moda) o que ela achava de Deus. Ela respondeu que sim, ela amava Deus, que ela era cristã, afinal ela era do Texas! Ri tanto que quase caí da cadeira. É mais engraçado quando a gente ouve a gravação. A presunção da menina é que o cristianismo era uma espécie de herança familiar ou cultural que não precisava ter absolutamente nada a ver com a vida dela. No fundo penso que todos nós, com poucas exceções, praticamos em algum grau esta forma de auto engano. Essa é a beleza da mensagem dos puritanos - antigos e modernos: é tudo ou nada, ou você pertence a Deus por inteiro, ou não é Dele de maneira alguma. Eu tinha uma dificuldade medonha de aceitar vários dos preceitos que pareciam radicais para mim, e hoje vejo que o que me faltava era coragem de abraçar as verdades bíblicas. O que me assusta é que ainda há muito de mim que reluta a se render ao apelo provlamado no evangelho. Acho que não sou o único.

domingo, outubro 30, 2011

Uma pequena passagem de Earle Fox

Earle Fox, sacerdote anglicano e filósofo americano, no seu livro Personality Empiricism and God (p. 57), escreveu um alerta conciso e muito justo para os cristãos. Gostei tanto que quero repetir aqui:

"The survival of Western Civilization (including most assuredly science itself, due process in civil law, and a free-market economy) depends, in major part, on whether Christians can sustain their claim that Jesus is Lord with an intellectually credible cosmology and Good News about the Intelligent Designer."


sábado, setembro 17, 2011

Minha semana de Solteiro

Minha esposa foi para Cold Spring Harbor, upstate New York, participar de uma conferência sobre Microbiologia. É que ela é uma bióloga atípica, tem horror a qualquer tipo de animal superior com exceção dos gatos e, em nossos melhores dias, de mim. Fiquei brincando com a idéia de ficar sozinho toda a semana passada. Eu sou um marido grudento, sofro quando minha digníssima se vai por mais de algumas horas, mas confesso que estava bastante excitado com a idéia to tempo livre que teria.

Eis o problema: sempre tive a impressão de que passei a produzir e estudar muito menos desde que me casei. Fico sempre irritado com o tempo que minha esposa consome com banalidades das quais sou, com freqüência, espectador inerme ou, na pior das hipóteses, participante contrafeito. Estava triste por estar só, mas imerso no antegozo dos projetos que eu iria realizazr durante a semana. Passo então a fazer um balanço das atividades realizadas.

Na terça-feira saí cedo do trabalho, onde havia tão pouco a fazer que fiquei cansado. Cheguei em casa e requentei o risoto que minha previdente esposa deixou feito no dia anterior. Comi assistindo desenho animado. Preparei café para a manhã seguinte, guardei o resto do risoto na marmita, tomei banho, pus o pijama e liguei para minha amada: "Querida, estou aproveitando que você viajou para fazer uma coisa que você nunca deixa: são sete e meia da noite e já estou na cama pronto para dormir!"

Na quarta, tive que buscar o carro dela no mecânico. Fui certo de que iria pegar o carro e dar uma volta pela cidade. No meio do caminho de volta acabei mudando de idéia. Voltei para casa, não pude fumar porque tive preguiça de ir comprar cigarro, tomei banho e encomendei comida chinesa. Fiquei assistindo mais desenhos na cama até a comida chegar. Fui buscar a comida, que levei direto para a cama onde comi e caí no sono. Acordei na manhã seguinte ao lado da bandeja.

Na quinta fui ajudar meu querido amigo Tony Ex Ex (já estou fazendo referências a meus posts anteriores, uau...) a resolver uns problemas no computador. Assisti o começo do show do Rei Roberto Carlos em Jerusalém enquanto fazia um macarrão. Comi e fui para cama após ler meia página de John Piper.

Na sexta cheguei em casa e jantei Cheetos, dois muffins de chocolate e um copo de uísque. Resolvido a ler alguma coisa fui tentar acabar de ler The Jesuits do Malachi Martin. Avancei um pouco na leitura, mas não me lembro mais o que li. Tentei dormir mas a gata não parava de miar de saudades de sua dona. Fui dormir em definitivo às duas e meia da manhã e acordei às seis e meia com o barulho do celular que trazia a mensagem de minha esposa avisando que me ligaria dali alguns minutos. Não preciso dizer que a noite acabou aí.

Esta experiência me mostrou de forma cabal a imbecilidade da concepção de que o casamento consumiu tempo precioso de criatividade. Desculpe querida, de longe o pior inimigo de meu desenvolvimento intelectual continuo sendo eu. Engraçado como essas situações nos mostram como certas idéias que jamais questionamos podem ser completamente falsas. Como diz o Matt Chandler, noventa por cento das vezes você está infeliz por culpa sua.

Para meu alívio,a patroa volta hoje para Dallas e a vida retoma seu ritmo normal. Passo muito melhor quando tenho alguém para me defender de mim. Vivendo e aprendendo.

sexta-feira, julho 29, 2011

Dallas no verão

É chegada a noite de sexta feira. Difícil crer que seja o caso, pois o Sol continua a reinar e obfuscar os demais astros no céu, e a brisa sopra quente sobre a cidade. O tempo inclemente, seco, quente e opressivo de Dallas obriga seus habitantes a buscar o refúgio de seus aparelhos de ar condicionado, onde quer que se encontrem.

Não há quase vagabundos ou loucos mendicantes na cidade. Se não basta para afastá-los o sol inclemente, também não encontram aqui calçadas pelas quais vagar, nem praças onde repousar. As ruas mostram assim a limpeza de um lugar estéril. Para encontrar fida por aqui, seja ela humana ou animal, deve-se procurar um dos shopping centers - estrangeirismo infeliz, uma vez que os anglófonos preferem chamá-los de "malls".

Estamos contentes em procurar o refúgio do lar, ao abrigo do sol e da falta de vida nas ruas. As ruas foram feitas para carros, não para gente. E há carros de sobra para encher os olhos de qualquer transeunte. É um prazer ser motorista em Dallas. As ruas exibem uma perfeita ordem, fazendo circular de forma harmoniosa sua corrente de sangue, metal e borracha. São ruas largas, prontas para receber os "trucks" que os texanos insistem em conduzir embora a maioria já tenha deixado as fazendas e ranchos faz muitas gerações.

Durante a semana, todos trabalham. Possivelmente trabalham demais. Nos fins de semana, os habitantes da cidade saem de suas casas, montados em suas caminhonetes (ainda maiores no Texas do que no resto do mundo) e afluem para os bares, restaurantes, clubes de strip-tease (há quem sustente terem sido inventados aqui), malls, cinemas e igrejas, muitas igrejas. O cinturão bíblico, que tem em Dallas uma de suas áreas mais representativas, produz santos e pecadores em desabalada medida. Para fazer um santo, é necessário um pecador, a fé, a graça e o Cristo. Sem o pecador não há o santo, e pecadores há em profusão, e uma profusão proporcional de igrejas a interceder por tanto pecado.

É necessário muito trabalho, muito pecado, muito perdão e santidade para que Dallas permaneça, dia após dia, ao abrigo do sol.

domingo, julho 17, 2011

Olavo de Carvalho: Intrigantes e Fofoqueiros

Divulgo um vídeo do Olavo de Carvalho desancando os imbecis que insistem em atacá-lo e, de quebra, seus alunos. Não tenho nada a acrescentar ao que disse o filósofo. O Olavo é brilhante em suas exposições, e sempre procura ser didático, de modo que posso dizer com segurança que se ele não é melhor compreendido, e chega a ser combatido, é por deficiência mental e moral de seus detratores.

Eis o link direto do vídeo para download:
http://a32.video2.blip.tv/11950008929367/Olavodecarvalho-IntrigantesEFofoqueiros590.flv?brs=1043&bri=14.1

E o link do Seminário de Filosofia, o qual, vale lembrar, só me fez bem.
http://a32.video2.blip.tv/11950008929367/Olavodecarvalho-IntrigantesEFofoqueiros590.flv?brs=1043&bri=14.1

sábado, julho 09, 2011

O Português do pastor Marcílio

Já se vão alguns anos desde a última vez que ouvi a pregação do pastor Marcílio Gomes Teixeira. Quando finalmente fui trazido de volta, de maneira lenta e gradual, ao seio da noiva, ele já não estava mais à frente da Igrja Batista Central de Campinas. Tive a alegria de encontrá-lo, bem como sua esposa, a Dona Helena, alguns anos depois, durante um culto comemorativo de 50 anos da IBCC. Foi uma ocasião muito singular para mim, uma vez que o casal teve um papel muito importante em minha vida cristã. Foram ativos nos momentos fundamentais de minha formação, e quero muito bem aos dois pelo que me legaram.

Mas este não é o tema do post. O tema não é o pastor Marcílio, nem o seu papel na minha formação cristã. O tema é o Português do pastor.

Hoje tive a vontade, meio do nada, de escutar um sermão em Português. Me bateu uma saudade de escutar um pregador que tivesse algo a ver com a minha cultura, e recentemente só tenho escutado pastor americano (por razões óbvias) além do ex-comediante e agora evangelista ultra ortodoxo na teologia Todd Friel e estava francamente enjoado. Por acaso, no site da IBCC, que não revela o nome do pregador na sua Central de Mensagens, fiz o download de uma mensagem que calhou de ser pregada pelo pastor Marcílio.

Depois de tantos anos, foi um verdadeiro alento para meus ouvidos escutar alguém falando Português de forma tão natural, tão espontânea e tão correta! Preciso escutar mais uma vez para ter certeza, mas tive a impressão de que ele não comete um único erro gramatical, em nenhuma ocasião escorrega na pronúncia, declama o texto da mensagem como se estivesse batendo um papo e tomando o café da tarde na varanda.

Numa era de teleprompter, de improvisos desastrados, uma época em que até nos jornais a última flor do lácio é abusada e maltratada por um verdadeiro exército de profissionais que não passam de usurpadores dos cargos de professores, escritores e jornalistas, uma época em que blogueiros como eu publicam artigos sem corrigir por pura preguiça (sim, quem passa por este espaço sabe o quanto fujo da tarefa de corrigir meus textos - preciso é de um editor que seja super competente e aceite como pagamento apenas sorrisos e tapinhas nas costas), é uma delícia escutar um pregador que tenha um domínio tão perfeito da língua pátria. Muito disso é mérito do pastor Marcílio, por buscar ser um homem educado, parte se explica pelo fato de o pastor ser de outra geração, aquela cuja educação ainda não havia sido sacrificada no altar das ambições socialistas.

Toda esta experiência me remeteu diretamente à infância. Lembro que nunca fiz questão de participar do louvor na igreja, o qual curiosamente era o momento no qual as crianças podiam ficar, mas sempre gostava de ficar para a mensagem. Escutava extático a pregação e me empenhava em compreendê-la. Desta forma, aprender a usar palavras novas, expressões, tudo isso no Português falado, era muito natural para mim. Tive sorte. A maioria das pessoas aprendeu o Português chinfrim com sotaque carioca que a Rede Globo espalha para 70% da população brasileira feito gonorréia.

Um dos poucos lugares dos quais o Português falado pode ser proferido com total correção gramátical, sem parecer estranho, é o púlpito. Infelizmente alguns pregadores se esquecem disso, talvez no afã de atingir mais pessoas. Acho que convém lembrar, especialmente diante da enxurrada de novas traduções cada vez mais simples e mastigadas da Bília que invadem o mercado editorial brasileiro, que em breve o evangelho não vai mais ser reconhecível no Brasil simplesmente porque faltam palavras para anunciá-lo! As besteiras linguísticas e a ignorância generalizada cujos exemplos abundam nos jornais, revistas e na TV, certamente acabam desaguando nas praias da teologia. O resultado desse processo corre a galope na Terra de Vera Cruz, como bem demonstra o sucesso estrondoso das formas mais baixas de teologia (entenda-se aí pricipal mas não exclusivamente a Igreja Universal do Reino de Deus).

O país precisa de pessoas mais educadas no ministério pastoral. Lemrbo-me de um comentário de Frank B. Sandborn (em Voegelin, The Form of the American Mind p.132, nota 20) sobre Johnathan Edwards, em que ele dizia Edwards, se quisesse, teria ficado par a par com David Hume no campo da Filosofia, mas preferiu dedicar sua vida à carreira de ministro do evangelho. O que produziu o Brasil que se compare? O último grande pregador brasileiro que falava e escrevia em um Português castiço, o Pe. Vieira, nem brasileiro era.

Fica então registrado meu apreço e minha gratidão ao pastor Marcílio.

sexta-feira, julho 08, 2011

Warren, Piper, Carvalho e esta besta que vos fala

Fiquei sabendo que John Piper está indo ao Brasil. Bom para o Brasil. Piper é um pregador excelente e um homem com uma paixão intensa pela glória de Deus. Ele nos reapresentou a uma faceta muitas vezes esquecida da fé cristã, a genuina alegria em Deus, e conseguiu fundamentá-la naquela característica que para o homem carnal seria a antítese da alegria, a absoluta soberania divina. Seu "Desiring God" é uma obra prima que demonstra, por parte do autor, uma compreensão sublime e, no entanto, quase velada da dialética fina que rege a relação entre nossa alegria e a soberania de Deus.

Admiro faz alguns anos o ministério de Piper. Ele foi tema de uma das conversas com o pastor Leandro Peixoto que me afetou profundamente. Aqui em Dallas fui novamente me nutrindo com o material da pregação dele e sou muito grato por isso. Tive, contudo, uma experiência curiosa que tem a ver com o Olavo de Carvalho. Farei o possível para atar estas pontas logo, antes que acabe o interesse do leitor.

Muitos meses atrás, o professor Olavo nos dizia que o brasileiro tinha um jeito muito gozado de admirar uma pessoa: admiramos quem tem mais força que nós (força intelectual, ou eu não estaria falando de Piper e Carvalho, mas de Terry Hulk Hogan e Lou Ferrigno), mas ao primeiro sinal de que a pessoa possua algum defeito qualquer, nos decepcionamos, baixamos os olhos, vestimos pano de saco e lançamos cinzas sobre a cabeça. Em seguida, já consideramos o fulano superado por nós, e sentimo-nos os gostosões, afinal descobrimos um defeito no que antes nos parecia tão belo e formoso. Ora, após ouvir esta aula umas tantas vezes, já estava certo de que jamais iria cair na besteira de me comportar como os imbecis que fazem estas coisas.

Quem adivinhar o que aconteceu em seguida leva um doce.

Entrei no www.desiringgod.org e fui recebido com um banho de água fria. John Piper fez uma das entrevistas mais chapa-branca da história recente, perguntando uma série de questões sobre doutrina cristã para o conhecido pastor-da-camisa-havaiana Rick Warren, e recebendo como resposta quse tudo o que ele, e qualquer calvinista que se preza, gostaria de ouvir. Só faltou perguntar a coisa mais importante: por que a obra e a pregação e a postura pública do fulano não concordam com todas as coisas bonitas que ele disse na entrevista?. Se você é fã do Rick Warren, por favor, pare de ler por aqui. Não vou me desculpar por afirmar que o sujeito é um charlatão (procure no Youtube os vídeos mostrando o homem falando uma coisa para sua igreja e depois descaradamente negando tudo para o Larry King na questão da Proposition 8). Mentir em um canal de TV a cabo visto por pessoas de todo o país foi apenas a mais recente presepada na folha corrida do mega seeker-sensitive church pastor. Ele é o rei das platitudes superficiais, que ele quer que acreditemos se tratarem de pregação do evangelho, e faz tudo em nome do propósito questionável de fazer com que toda e qualquer pessoa se sinta o mais à vontade possível para se juntar aos quadros inchados de seu mega-ministério. Quem conhece o ministério sério, a pregação profunda, ainda que divertida, e o esforço enorme feito por Matt Chandler para esvaziar os bancos de sua Village Church vai entender bem a diferença entre o mega pastor que deu a bênção à presidência Obama (dói o saco só de pensar) e um pastor de verdade como o Chandler (embora este seja, pelas minhas estimativas, bem mais novo).

Não se pode negar que o homem seja esperto. Ele é bom de papo, está determinado a agradar a dois senhores (e a quem mais ele conseguir), e consegue se manter sempre sorridente, superficial e em cima do muro. Imagine qual não foi a minha surpresa quando assisti uma entrevista de umas duas horas na qual Rick Warren usava o reconhecimento de John Piper no meio evangélico como papel higienico para limpar sua reputação.

Imediatamente levantei meus punhos indignados para os céus, naveguei a internet buscando opiniões de pessoas que estivessem tão iradas quanto eu (encontrei algumas). No dia seguinte fiz um discurso indignado no caminho para o trabalho, para o qual aluguei os dois ouvidos de meu insuspeito amigo Tony, que é ex adventista, ex cristão denominacional (Quem foi adventista pode mesmo dizer que foi cristão denominacional? Uma pergunta que ficará sem resposta neste espaço - embora, neste caso, a pergunta sozinha já deva ter ofendido muita gente) e presentemente judeu messiânico, e que, por conseguinte, não tinha nada a ver com o pato.

Passadas mais umas semanas voltei ao meu estado normal, estava ouvindo o Piper e lendo This Momentary Marriage, uma exposição magistral sobre o que é o casamento aos olhos de Deus e as conseqüências práticas disso para a vida dos casais (mais uma ponta solta que não terei ocasião de atar e ficará sem maiores elaborações - quem quiser que compre o livro), quando escutei uma aula recente do professor Olavo reiterando o aviso acerca da maneira torta que o Brasileiro tem de admirar. Me bateu uma baita culpa retardada pela minha conduta, e meus sentimentos mesmo, durante a fatídica semana da entrevista. Derrubei o Piper em minha mente e quis me achar melhor que ele, busquei apoio para minha estupidez em algumas opiniões colhidas na internet, botei banca de santo e defensor da família e da fé cristã ortodoxa... Uma miséria só. O filósofo conseguiu me pôr em xeque sem nem mesmo se dar conta. Chega a dar arrepio a maneira como o homem conseguiu ver exatamente o que estava se passando... sem saber o que estava se passando! Vivendo e aprendendo.

Me senti um bundão, um estúpido (e alguns dirão que este deve ter sido um de meus raros momentos de clareza - devem ser fãs do Rick Warren) e aprendi um pouco mais sobre orgulho intelectual, sobre a diferença entre moralidade e moralismo e sobre mais uma razão pela qual fazer parte do Curso de Filosofia do professor Olavo foi uma decisão acertada. Não fosse pelo puxão de orelha, eu teria morrido com a convicçao imbecil de que minha (inexistente) santidade era algo mais que uma invenção diabólica.

Continuo não gostando do Rick Warren e o que ele representa. Continuo não entendendo o porque da tal entrevista. Estou, contudo, profundamente arrependido pela minha reação. Achei a coisa toda tão instrutiva que resolvi compartilhar com qualquer interessado, assim algum bem se faz dessa porcaria toda.

Em suma, se puderem, vão assistir o Piper no Mackenzie quando ele for ao Brasil. Vale muito a pena.

quarta-feira, julho 06, 2011

Um pouco como o Romário

Um pouco como o Romário, que voltou da aposentadoria mais vezes do que posso contar, estou fazendo mais um retorno à blogosfera. Um comentário amabilíssimo em meu último post (que será atendido assim que eu tiver uma oportunidade) fez-me ver a desfaçatez que é manter aberto um blog no qual só se escreve uma vez por ano. Sei que não causei nenhuma séria crise de depressão com minha ausência, mas um estranho senso de decoro me impele a voltar.

Digo mais: espero voltar mais leve, mais breve, mais adaptado à falta de tempo que me constrange. Já era hora de abandonar a mentalidade "ou escrevo algo muito sério (o que nunca consegui fazer muito bem), ou não escrevo nada". Espero publicar alguns posts de fôlego que estão na gaveta, mas o grosso da produção será de platitudes mesmo. Se não fizer assim, arrisco esquecer o Português. Tanto é o medo que já pedi para a professora Lídia (a senhora minha mãe) uma gramática de presente. Quem sabe agora, com quase trinta anos de idade e uma resma de textos publicados aqui, não consigo finalmente aprender gramática?

terça-feira, novembro 30, 2010

Mais um Pouco de Música

Um de meus documentários favoritos (se é que se pode chamar de documentário) é o Why Beauty Matters, do filósofo Roger Scruton. O programa se trata, na verdade, de um ensaio filosófico narrado pelo próprio Scruton sobre o tema da beleza e seu aparente sumiço na contemporaneidade. A despeito da conclusão final de que a religião e a beleza podem ser, de alguma forma, intercambiáveis - o que acredito ser bastante discutível, pois tenho a impressão de que a religião encampa e transcende a mera estética - o ensaio de Scruton é uma das mais acessíveis críticas aos rumos que a arte tomou nos últimos tempos (estou sendo bem liberal com o uso de últimos tempos aqui, pois o filósofo demonstra como a arte já vem perdendo a relação com a beleza há mais de sessenta anos).

O que ficou mais vivo na memória em meio a todo o discurso foi a seção final, em que Scruton apresenta um exemplo de música simples e excepcionalmente bela. Trata-se da obra de Pergolese, Stabat Mater. A obra produzida no fim da vida de Pergolese (o compositor morreu muito jovem) põe a audiência diante da beleza peculiar que brota do sofrimento. No caso, o sofrimento da Mãe de Jesus ao ver o filho crucificado. A letra é um poema do Séc. XIII, normalmente associado ao memorial de N. Senhora das Dores. Pergolese é apenas um entre vários pesos pesados da música clássica a usar o poema como tema para suas composições. Uma longa linha de compositores vai de Palestrina a Arvo Pärt (cuja obra baseada no poema é, por sinal, belíssima).

Experimentei algumas gravações da Stabat Mater de Pergolese e a que mais capturou minha atenção foi a de Christopher Hogwood. Infelizmente não foi muito fácil de achar um arquivo de qualidade. Os arquivos no PQP Bach são ótimos MP3, mas além do problema na tag da primeira faixa, o formato é lossy. Para os mais puristas, encontrei o CD no formato APE, com as tags corretas. Se alguém se interessar, que dê uma olhada nos comentários aqui. Vale lembrar sempre que isto é só para degustação temporária, apague depois de ouvir, e que sairá do ar diante da primeira reclamação enviada a este blog.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

A Trilogia de Francis Schaeffer

Acabo de completar a leitura da Trilogia de Francis Schaeffer: The God Who is There, Escape From Reason e He is There and He is not Silent. Cinco anos atrás eu já lera o primeiro volume, e a única coisa que me espantou então foi o fato de que havia um autor evangélico que lera e compreendera (bem ou mal eu não sabia dizer) os intelectuais em voga na sua época. Achei aquilo fantástico, empolgante; eu não precisaria mais lidar com os problemas decorrentes de uma personalidade cindida, a do evangélico que queria seguir a vida dentro dos limites permitidos pelo dogma intelectual e comportamental de minha igreja local (ênfase na santidade prática de cada ato e pensamento, no isolamento de influências mundanas presentes na cultura contemporânea e um preconceito – com toda razão – contra a intelectualidade humanística que abundava e abunda na academia), e a do proto-pseudo-intelectual de universidade (aprendendo por um lado a confiança somente na ciência proferida pelos próprios lentes da escola, uma vaga noção de que os evangélicos não eram lá muito inteligentes e um constante apelo do meio social – ao qual acabei atendendo depois de um ano de USP – à prática de umas tantas imoralidades que atendessem meus desejos mais baixos). Agora, com um pouco mais de atenção e experiência nas costas, achei por bem ler a coisa toda novamente e fui surpreendido por um material intelectual de primeira, muito embora a apresentação e os termos empregados pelo autor possam soar um pouco estranhos no começo, e seja necessário traduzir certas noções e um resquício de jargão evangélico em termo mais palatáveis ao leitor de filosofia. O que eu gostaria de fazer aqui é retraçar algumas etapas do pensamento de Schaeffer que me chamaram minha atenção, bem como registrar algumas impressões que a leitura me deixou.

O primeiro passo que Schaeffer tomou ao estabelecer as bases de seu pensamento, conforme creio ser possível entrever na Trilogia, foi tentar entender o que estava passando aquela geração claramente perdida para da qual ele percebeu ser necessário pregar o evangelho. As implicações desse ponto de partida podem ser desmembradas em elementos importantes que tentarei resumir.

O esforço de Schaeffer em compreender aquela geração implica uma abertura para a experiência em dois níveis: Primeiro, Schaeffer leu os livros, estudou a filosofia, contemplou os quadros, ouviu as músicas, assistiu os filmes, procurou absorver (não se deixar levar por, mas ABSORVER, tornando-se maior que) a cultura secular em torno – tanto a alta cultura quanto a cultura popular. Os teólogos liberais não tiveram a grandeza de absorver e superar os elementos da cultura, antes foram absorvidos por ela, os resultados da abertura destes teólogos para a cultura foram, como hoje se pode verificar, desastrosos; Schaeffer conseguiu se expor a todas estas influências, colocá-las para dentro e expelir tudo que elas tinham de ruim, restando nele apenas a compreensão profunda dos movimentos filosóficos e culturais contemporâneos. Segundo, Schaeffer reconstruiu no imaginário as experiências e estados internos daquelas pessoas com as quais constantemente conversava, e apesar de não participar das práticas daquela geração que tentava entender, sua poderosa imaginação o tornava capaz de reconstruir as experiências e estados emocionais e intelectuais daquelas pessoas e isso o levou a sofrer genuinamente a dor delas, e a sentir a necessidade de apresentar-lhes o evangelho.

O segundo passo tomado por Schaeffer decorre de sua absorção e análise da cultura. Uma conclusão da crítica cultural de Schaeffer é que a cultura contemporânea é uma mistura de correntes distintas com muito pouco em comum. O que parece constante nela é: (1) o efeito daninho que suas correntes provocam na alma humana e (2) uma fuga da racionalidade, da unidade da realidade e da unidade do conhecimento. Schaeffer viu, na cacofonia das culturas secular e, infelizmente, teológica modernas, aparentemente tão díspares e heterogêneas, freqüentemente antagônicas, os dois elementos de fundo encontrados em cada degrau da "escada do desespero", dos "dois andares" em que se dividiu cada um dos homens modernos. O problema espiritual do homem é que divide sua personalidade, e a cosmovisão decorrente da atividade mental de uma personalidade cindida é a imagem de uma realidade cindida Em cada aspecto da cultura secular, filosofia, literatura, música, etc., existe a marca de uma espiritualidade cega, estúpida, misticista e irracional oposta a um materialismo pseudo-científico que pontifica acerca daquilo que não é capaz de saber e reduz o homem a uma máquina. Schaeffer apresenta o cristianismo como a única saída autenticamente racional e ao mesmo tempo autenticamente espiritual para a doença espiritual moderna.

Embora os méritos filosóficos de Schaeffer sejam bastante discutíveis, alguns vêem nele um filósofo, outros não – particularmente creio que sua abertura para a realidade (e para a realidade em seu sentido mais amplo), sua busca pelo conhecimento por meio da experiência, sua compreensão da necessidade de uma antropologia filosófica adequada para a compreensão do papel do homem (ele chama de metafísica a situação do homem perante o todo da realidade) no plano geral de Deus, dão mostras de que Schaeffer poderia ter sido um filósofo notável – produzir uma filosofia nunca foi sua intenção. A preocupação principal de Schaeffer era apologética, o que é possível notar já na linguagem que ele adota, fugindo com freqüência do jargão filosófico e buscando termos que as pessoas possam relacionar com sua experiência comum. Sua crítica à filosofia era um instrumento para deixar pessoas reais sem qualquer alternativa intelectual ao cristianismo. No entanto, no campo teológico, Schaeffer procura reintroduzir a razão como elemento crucial para a fé devidamente fundamentada. Isso não é dizer que ele subordinasse a fé à razão, mas que ele compreendia a vida espiritual e a vida intelectual como partes indissociáveis do homem, justamente por que fomos criados por Deus dentro de um esquema de coisas único no qual não há um mundo material e outro espiritual e a noção de salto de fé é absolutamente desnecessária. Um exemplo interessante do uso que Schaeffer faz do instrumental filosófico é sua solução para confrontar o filósofo contemporâneo, seja marxista, positivista lógico ou existencialista, que consiste em retirar as noções filosóficas de seu confortável domínio das idéias e tentar aplicá-las ao próprio autor ou repetidor das idéias em questão. O que importa notar no exemplo é que Schaeffer não busca produzir um despertar intelectual, mas sim achar um ponto de tensão para colapsar a visão de mundo do sujeito e torná-lo aberto a ouvir o evangelho.

A despeito de suas despretensões filosóficas, fico espantado em ver como a aplicação constante da via filosófica de abertura para a realidade, balizada apenas pelo ensinamento contido na Escritura Sagrada, produziu em Schaeffer uma capacidade extraordinária de antever a direção na qual o mundo moderno se movia. A Trilogia, bem como os últimos episódios da série de vídeos "How Should We Then Live?" Mostram com clareza a compreensão precisa que Schaeffer tinha de vários movimentos em curso na modernidade. Posso citar de memória a influência nefasta dos marxistas entre membros modernistas da Igreja Católica, a compreensão de que o marxismo não necessita das idéias econômicas de Marx para se realizar, a explosão do mercado pornográfico prenunciada no aparecimento da pornografia na alta cultura (Henry Miller, por exemplo), o esvaziamento do conteúdo das palavras que veio a corroer o senso de orientação intelectual e espiritual até mesmo dentro das igrejas e que hoje é prática comum no jornalismo e contamina a linguagem popular (deixando as populações indefesas contra qualquer manipulação). No último livro da Trilogia ele chega inclusive a ver como provável conseqüência da incapacidade moderna para o conhecimento moral a emergência de uma elite que tome decisões morais e comportamentais por todos (nos vídeos creio que ele menciona algumas pesquisas científicas voltadas para a manipulação do comportamento humano – um problemão que deveria estar sendo centro de discussão geral e ainda hoje não se discute fora de alguns círculos restritos). Acho engraçado como estas antevisões devastadoras aparecem de forma quase incidental no discurso de Schaeffer, cujo propósito é apenas e tão somente nos levar a conhecer melhor o plano de Deus para resgatar o homem caído.


 

II

Schaeffer atacou alguns problemas filosóficos, por ter crido que era necessário oferecer uma resposta cristã a dúvidas que poderiam oferecer obstáculos intelectuais à aceitação do evangelho. Esboçou uma antropologia filosófica, na qual relatou o estado tensional do homem – caído em pecado, mas feito à imagem de Deus e capaz de relacionar-se com Ele por meio da graça divina. Tratou também de esclarecer como é possível a comunicação direta entre deus e o homem por meio da escritura, o que torna possível demonstrar em seguida o motivo pelo qual devemos ter a Bíblia como mais alta regra de fé – pois ela é uma comunicação direta de Deus ao homem.

A noção que creio ser fundamental para estabelecer a possibilidade de comunicação e relacionamento entre Deus e o homem é a ênfase dada por Schaeffer à noção de Deus enquanto pessoa. Um dos grandes problemas da teologia, e principalmente da filosofia, é o fato de Deus ser incompreensível enquanto objeto da inteligência humana. O problema se espalha para o campo da ontologia quando verificamos que a parte, o ser criado, não é capaz de compreender o todo, o criador sem antes se ter tornado igual a ele. Sendo Deus perfeito e infinito, não poderia e nem poderá haver dois d'Ele (problema já bem estabelecido pela filosofia medieval) e, portanto, o conhecimento de Deus é impossível. A sugestão de Schaeffer é a seguinte: Deus nos fez à sua imagem e semelhança, e essa verdade bíblica pode ser interpretada no sentido de que Ele nos dotou de personalidade. Deus é um Deus pessoal, e somos pessoas por participarmos (expressão minha) da personalidade divina. Enquanto pessoas, somos capazes de comunicação em dois níveis, com Deus e uns com os outros.

Algumas conseqüências podem ser extraídas do precedente. A comunicação pressupõe a racionalidade e exclui, portanto, a separação entre uma fé irracional e o cientificismo ou o materialismo racionais. A comunicação entre os homens e entre eles e Deus é precondição para que os homens possam amar uns aos outros e amar a Deus. A personalidade de Deus nos permite conhecê-lo, não como objeto, mas como se conhece uma pessoa, o que em geral se dá por meio de um diálogo, que no caso em tela se estende já por milhares de anos – o diálogo não fornece um conhecimento completo da pessoa divina, mas oferece um conhecimento suficiente e adequado às nossas limitações.

Fico com a impressão de que a relação pessoal com Deus e o conhecimento que disso resulta é essencialmente diferente da busca por um conhecimento difuso da realidade como um todo. A marca da personalidade é a afeição, e é radicalmente diferente conhecer uma realidade da qual somos parte e conhecer uma pessoa a quem venhamos a amar. Contudo, e diante do perigo de cair num sentimentalismo cristão dos mais ridículos, entendo que é uma experiência dos dois tipos é necessária para preenchermos corretamente as lacunas existenciais que ameaçam nos tragar. A maior lição que me foi legada por Francis Schaeffer foi justamente a necessidade de integração destes dois elementos na minha pessoa, se não de fato, ao menos enquanto projeto perpetuamente inacabado.

Cuidado com o que pedes...

Nos últimos meses, Deus ouviu mais uma vez minha oração. E eu nem tinha me dado conta. Recentemente perdi meu emprego na rede de supermercados Pequeno Polegar (que vem confirmar minha impressão de que os Estados Unidos sempre parecem uma nação meio ridícula depois que a gente a traduz para o Português), e estava me sentindo a mosca no cocô do cavalo do bandido. Digo isso porque acho que existe pouca coisa mais besta do que fazer o que eu fazia, era chato, deselegante, e cansativo, e mesmo de um trabalho desses eu fui demitido.

Hoje fui escarafunchar este blog que vos fala e encontrei um port recente, o Disperso, e então tudo fez sentido (e acredite, o ser humano é tão estúpido - e não sou exceção à regra - que só percebe as coisas depois que elas já se passaram), pois eu ali registrava meu pedido a Deus que me tirasse daquele lugar. Três dias depois de mudar de apartamento Ele atendeu. Simples assim. Eu é que não entendi.

Graças a Ele estou empregado novamente, num lugar em que estou mais contente, menos cansado apesar de trabalhar mais, e novamente empregado em um local próximo de casa.

Eu não deveria me surpreender, mas é sempre notável constatar que até hoje não houve uma única coisa que pedi com fé que Deus não tenha atendido amorosamente. Jamais por mérito meu, mas para maior glória d'Ele.

domingo, dezembro 27, 2009

Manhã de Domingo

Faz duas ou três semanas as coisas em casa iam bem. Estávamos de mudança para o apartamento novo, o qual finalmente proveria o espaço do qual precisávamos para viver sem que ficássemos nos acotovelando, estávamos com uma viagem marcada para passar dois dias em Boston e outros dois em New York, as coisas iam bem no trabalho e eu estava folgadamente desfrutando do meu tempo livre para dormir e relaxar da rotina. Tudo isto não durou muito. Três dias no apartamento novo e fui demitido do emprego, acusado de má conduta. De repente precisei avaliar tudo o que estava acontecendo ao meu redor. Minha vida não poderia mais cercar-se do conforto ao qual estava tão gostosamente me acostumando, e senti a mistura um bocado banal e comum (banal e comum até acontecer com a gente) de humilhação e confusão. Por que fui demitido? Por que dessa maneira infamante?

Em meio a essa confusão, corri até o telefone, ligar para casa a fim de conseguir algum apoio moral, apesar da distância, e tentar impor ordem aos pensamentos. Um pouco mais calmo, tendo recebido o carinho da família, comecei a pensar a respeito do acontecido e a me perguntar qual a razão para ter minha segurança tirada de baixo dos meus pés. Ademais, porque Deus me deixou à mercê de gente obviamente maldosa como encontrei no trabalho, onde tanto lutei para manter tudo funcionando ao longo de um ano conturbado que começou com o suicídio do meu chefe e terminou com minha demissão.

Por alguns dias mantive a cabeça clara. Alline me apoiou, acalmou e acompanhou minha saída daquele torpor e do inconformismo que vem diante de um revés tão sério, recomendou que eu visitasse uma igreja - provavelmente achando que era hora de exorcizarmos o que quer que nos estivesse perturbando. Eventualmente ela também desesperou e eu fui levado a crer que não seria capaz de aguentar o peso da nossa pequena tragédia. Brigamos e eu estava só à noite, finalmente tomando meu segundo copo de uísque, tentando simplesmente não sentir mais nada, quando me dei conta, um tanto bêbado, que a manhã seguinte seria uma manhã de domingo.

Agora convém voltar um pouco atrás no tempo e lembrar da longa e gostosa conversa que tive com o pastor Leandro Peixoto, da nossa querida IBCC. Quando contei que não tinha encontrado uma igreja em Dallas e que, ademais, estava trabalhando aos domingos, de modo que não estava frequentando lugar nenhum, acho que ele deve ter se segurado, ou para não rir, ou para não chorar. Eu mesmo sabia que estes motivos para estar longe da igreja, enfraquecido diante das tentações e desgastado pelos atritos constantes trazidos pelo casamento, eram no mínimo meias verdades. Paciente, o pastor me recomendou certas leituras, me falou de muita gente boa fazendo um trabalho pastoral e teológico interessante, e mencionou que em Dallas havia uma igreja pastoreada por um Matt Chandler, chamava-se The Village Church, e o que ali se pregava estava em linha com o que ele (e eu por influência dele) achávamos ser uma exposição bíblica do evangelho. Fiquei muito entusiasmado com tudo isso, mas fui logo dissuadido da idéia de investigar mais a fundo, especialmente depois de voltar à velha rotina de trabalho e aos velhos vícios - a preguiça, a necessidade de concentrar toda minha atenção à vida doméstica - e o assunto foi jogado para escanteio.

Pois bem, estava eu começando a me sentir um pouco melhor quando tive uma dessas idéias embriagadas de procurar uma igreja e perguntar a Deus o que estava havendo. Consultei o google em busca das igrejas batistas próximas de meu novo domicílio, e qual não foi minha surpresa quando ali estava a Village Church. Desnecessário dizer (porém direi) que fomos até lá no dia seguinte.

Estranhei um pouco o jeitão da igreja. Meio moderna, possui três campus, e o sermão é pregado em um deles e transmitido para os outros por videoconferência. Os pastores se vestem mais ou menos como eu, um moleque de vinte e poucos anos, e o louvor, acima da média, era feito em tom de soft rock contemporâneo. Cheguei ali cansado, humilhado e sem saber o que esperar do futuro próximo. Logo descobri que não era o único com problemas. Fiquei sabendo logo que Matt Chandler está com câncer no cérebro. Ok, eu não conhecia Matt Chandler, era a primeira vez que visitava a igreja, mas é impossível deixar de sentir um desconforto, e de perguntar em seguida: o que foi que ele fez para acabar desse jeito? Não, eu não me sinto melhor observando a desgraça alheia, muito menos em se tratando de um sujeito que, pelo que ouço falar, só fez servir a Deus e ao próximo, como manda o script. Não acho consolo algum na idéia de que muita gente sofre mais do que eu, mesmo porque minha mente queria, em primeiro lugar entender o que estava se passando, e não arranjar desculpas para que eu não me sentisse tão mal assim.

O sermão de Beau Huges, naturalmente versou sobre o dito câncer. Não recordo detalhes da mensagem, foi no dia 13 de dezembro, mas lembro que foi a palavra que precisava ouvir no momento. Basicamente, o pastor explicava que aquela desgraça, bem como outras que acontecem conosco ou ao nosso redor, são resultado do pecado no mundo, do nosso pecado. Depois disso deu uma palavra de consolo para os aflitos, e só me lembro da impressão de estar reafirmado, e de uma vontade de chorar (aqueles interessados podem ouvir a mensagem aqui). Eu estava abatido e fui animado, o bastante para manter a confiança na providência divina, mas estas experiências não duram para sempre, e na correria dos próximos dias, não aproveitei para fazer algo de mais duradouro daquele momento importante e daquela mensagem de ânimo e misericórdia apesar da fúria de Deus contra o pecado.

Passado algum tempo sem voltar à igreja (estivemos viajando, e a viagem será assunto para outro post), já desgastados por uma série de coisas que continuaram dando errado para nós (entre umas tantas que deram certo), nos encontramos rumo à igreja mais uma vez esta manhã. Irritado desde cedo por algumas reclamações de Alline por alguns problemas menores na casa, acabei explodindo e fui berrando de casa até a igreja. Chegando lá, enquanto mexia a boca durante os hinos que não conhecia, fiquei pensando o quão depressa nos esquecemos de Deus. Em duas semanas eu estava na velha rotina, irritado com minha mulher e principalmente assombrado com as mudanças que estes últimos anos trouxeram ao meu temperamento (aqueles que me conhecem normalmente se lembram de um sujeito calmo, meio bobo e normalmente bem humorado). Baixamos a cabeça para orar, e ao final da oração ouvi uma voz familiar que costumava ouvir nas gravações de mensagens e sermões que tanto escuto pela internet. Levantei a cabeça e tive a grata surpresa de ver que o pregador era o John Piper.

Muito amável nesta visita a Dallas (da qual eu não fazia a menor idéia) ele conduziu a igreja por entre uma passagem de Romanos, capítulo 8, mostrando como nosso sofrimento nada mais é do que a maneira de Deus nos fazer ver o quanto o nosso pecado ofende a sua glória. Somente o sofrimento nos faz ver o que nossa rebeldia faz contra Deus. Imediatamente percebi exatamente o que acontecera comigo. E que coisa graciosa ter Deus trazido um de meus pregadores favoritos para dizer o que estava se passando em minha vida em particular, e nas vidas de tantas pessoas em geral, ainda que o assunto do sermão fosse, no fundo, o câncer de Matt Chandler.

Parece, olhando para minha própria experiência, que só paramos de agir com rebeldia diante de Deus quando estamos finalmente cansados demais, abatidos demais para fazer qualquer coisa. Seja cansados, seja rebeldes, Deus encontra meios de nos mostrar o que realmente importa e nos reconduzir quando nos perdemos. O símbolo do bom pastor, longe de ser uma mera analogia, fruto casual do meio em que nasceu o cristianismo (como querem alguns), possui um significado duradouro, pois no fundo, somos como ovelhas, estúpidos e facilmente perdidos, devorados, caso não tenhamos alguém que nos guarde e conduza, e seremos co-herdeiros e irmãos adotivos de Cristo, o cordeiro de Deus. É importante entender que não temos controle sobre nossos destinos, e que devemos nos colocar à mercê da graça divina, pela qual o Senhor nos reconduz a si.

sexta-feira, novembro 20, 2009

Disperso

I


Enquanto não me chega a paciência ou a energia para reler e acabar os posts que queria ter publicado aqui vou escrevendo sobre outras coisas que me ocorrem. O tom de "querido diário" é inevitável, mas já era hora de começar a escrever em maior quantidade, o que é melhor do que não escrever at all. Na era do Twitter (tremo diante da idéia de haver uma "era" do Twitter) em que podemos escrever telegráficos relatos de nossas atividades para todas as pessoas que nos acompanham pela internet, eu, o prolixo bacharel, prefiro utilizar a tecnologia para informar a quem interessar que estou ouvindo Mozart no momento, enquanto me recuperode uma gripe desagradável (putz, e existe outro tipo?) cuja força descomunal me desancou ontem e hoje deixou somente uma má lembrança e muitos lenços de papel.


II


Instalei em meu notebook um programa chamado Digsby, que unifica as mensagens de diversas contas de e-mail, perfis em sites de relacionamento e programas de chat pela internet. Embora esteja gostando da ferramenta, pois me poupa o tempo de ficar ciscando informações e mensagens recebidas de diversas fontes e com diversos graus de interesse.O que me assustou foi constatar, depois de configurar o programa para administrar o MSN, Facebook, Yahoo Mail, Gmail, Hotmail, Google Talk e Twitter (o programa não se conecta ao Orkut nem ao Skype, os quais tenho que ver separadamente) , a quantidade de meios de comunicação dos quais disponho. Achei um exagero, e não fosse pelo Digsby acho que já teria exterminado boa parte deles, pois nunca gostei de estar tão acessível assim. Sinal dos tempos. Moro longe da família e dos amigos mais antigos e seria mais difícil não fossem estas pequenas comodidades, mas para que tantas? Noventa e cinco por cento do que recebo é bobagem. Outro sinal dos tempos. O marketing agressivo é um adversário feroz do nosso controle sobre o próprio tempo (é também, acredito, o túmulo da elegância, da lisura e do respeito) e ficamos constantemente a defender-nos de uma quantidade indescritível de bobagens as quais nos esfregam à cara.


Quantas coisas eu mesmo tive de esquecer ou mutilar para desempenhar meu próprio trabalho... Sempre tive por hábito falar quando solicitado, jamais ser insistente com qualquer pedido, tratar os mais velhos com a devida deferência, e fui sistematicamente solicitado a passar por cima de anos de um trabalho árduo de educação para vender Starbucks e assim "defendê o leite das criança". Situação incômoda, embora eu também não tenha por costume reclamar de barriga cheia. O trabalho é em si fácil. Só não consigo integrá-lo a minha personalidade. Talvez seja isso que me deprime periodicamente. No trabalho também interajo com um número enorme de pessoas por um tempo muito curto. É uma ocupação bastante dispersiva e volto para casa sem um pingo de energia. Ora, "quem comigo não ajunta espalha", e eu estou em cacos, espalhado dessa maneira. Peço a Deus a gentileza de, novamente, juntá-los e ordená-los como só Ele sabe. Não é um problema fundamentalmente diferente destes diversos instrumentos de comunicação que solicitam minha atenção. Doença moderna, criada pelo homem mesmo, com a melhor das intenções.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Encontro de Olavo de Carvalho, Alan Keyes e Alejandro Peña Esclusa



Assistam o vídeo, registro de um encontro entre três homens que têm, cada qual em sua área, pensado a política com responsabilidade intelectual e integridade pessoal.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Engraçadinha e o Futebol

Curioso como certas coisas voltam à memória com uma força extraordinária, malgrado o decurso dos anos, e nos devolvem um pouco do que somos e já nem sabíamos mais.

O episódio recente, mais ou menos recente, teve a ver com o gosto que minha senhora insiste em manter pela teledramaturgia da Rede Globo. Ora, eu já fui, até pouco tempo atrás, um desses babaquinhas que achavam muito inteligente criticar a emissora. Primeiro criticava por ser direitista demais, depois descbri que não existia direita de verdade no Brasil e passei a criticá-la pelo motivo contrário. Hoje acho muito besta ficar analisando umas tantas puerilidades televisivas e "jornalísticas" do momento e me ocupo de analisar coisas mais interessantes, e vou de quando em quando umas tantas risadas ao lado da patroa assistindo TV em portugûes quando temos a chance, sem culpa nem arrependimento.

But, alas, I digress. O caso é que nessas ocasiões de convívio com minha adorável consorte, calhou de botarmos as mãos naquela curiosa minissérie que foi a Engraçadinha. Vejam bem, quando a série saiu, eu não pude assistir. Mamãe não me deixava por que o negócio era muito maduro para meus verdes olhos (o que não é dizer que meus olhos sejam verdes, como de fato não são), vovó dizia que era imoral, era pecado. Papai bem poderia ter dito que a coisa toda era uma bela putaria (termo dele, não meu) e que eu ganhava mais indo ler um livro.

Bom, pensei, por um lado terei carta branca para ver umas peladas na TV, por outro vou ter que agir muito sério e compenetrado. Não consegui me compenetrar, nem fingir seriedade. O melhor que pude fazer foi passar uns comentários de conteúdo profundamente moralista num tom incofundivelmente histriônico.

No fim das contas eu gostei da série, não pelos motivos óbvios, que já não sou mais moleque, mas porque a linguagem era deliciosa (e vejam que nem li o livro, mas parece se tratar de uma imitação bacana do estilo do autor), e pela trama, que era chocante e fascinante ao mesmo tempo. E ainda tinha o bestiário de imorais que o programa perfilava, me divertiu à beça ver a interação daqueles tipos humanos tão marcados, cada qual vestindo, falando, transpirando, seus pecados particulares.

Ao final da jornada, três pensamentos me assaltaram, mais um pensamento e seria uma quadrilha (ou bando). Aliás, alguém lembra qual foi a última vez em que foi assaltado por um pensamento? Inversamente, não passou por minha cabeça pensamento algum na única vez em que fui assaltado de verdade. Pois então, fui metaforicamente assaltado por três pensamentos, o primeiro foi que eu precisava logo ler mais alguma coisa do Nelson Rodrigues. O segundo foi que se eu tivesse lido Nelson Rodrigues, lá nos tempos de ginásio, teria me poupado a leitura de John Irving, que hoje não acho nem de longe tão interessante quanto o cronista pátrio. O terceiro, logo depois do segundo (naturalmente), foi que eu tinha sim lido Nelson Rodrigues, e tinha gostado.

Se tinha lido e tinha gostado, por que esquecera? O mistério de minha memória roubada (quem sabe por um pensamento assaltante?) me incomodou durante algum tempo. Foi então, algum tempo mais tarde, recém recuperado da bebedeira que seguiu a última vitória da seleção de Dunga sobre a Argentina de ninguém mais ninguém menos que Don Diego Maradona, lembrando de outros assuntos futebolísticos (na distante Dallas em que football é sinonimo de Cowboys, e da vida amorosa de Tony Romo) descobri a razão do esquecimento: Nelson Rodrigues me fez gostar de futebol.

Explico. Meu pai, professor de Educação Física, preparador físico e paisagista nas horas vagas, fez o possível para me interessar pela arte da bola, sem grande sucesso. Por acaso caiu-lhe nas mãos uma edição d'A Sombra das Chuteiras Imortais, a qual tomei emprestada e devorei com alegria. De repente o futebol pareceu interessante, não na tela da TV, ao som dos berros do Galvão Bueno, ou como o exercício suado das aulas ao sol das três da tarde; antes aparecia como o embate luminoso de heróis da bola de outras épocas. Passei a ver o esporte com outros olhos, projetado na tela imaginária que fazia as partidas muito mais reais que aquelas que acompanhava pela televisão.
Quando recordo as discussões sobre quem jogava melhor, os jogadores de antigamente ou os atuais, outra cretinice da qual me curei (menos uma entre muitas), vejo que o buraco é mais em baixo: os escritores daquela época eram melhores, os jogadores assumiam uma estatura e dignidade assustadoras por tabela.
Tudo isso para dizer que estou gostando muito de ler Nelson Rodrigues e como este feliz (re)encontro veio a se passar. E quem quiser que conte outra.